 

Gwen Pemberton
Explicitamente Grvida
 
Ttulo: Explicitamente grvida
Autor: Gwen Pemberton 
Ttulo original: Regarding Rita
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1998
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida

O probleminha dela
Todos na cidade de Hooperville sabiam que Rita Lynn havia sido abandonada pelo pai do beb que carregava no ventre. As fofoqueiras e os casamenteiros a estavam tirando do srio, enquanto tentavam encontrar uma soluo "a respeito de Rita".
O problemo dele
Nate Morrow, advogado da cidade grande, queria sair do agito das grandes metrpoles. Hooperville parecia ser o lugar perfeito para encontrar um pouco de paz. Mal sabia ele que os habitantes dali o haviam escolhido como a soluo perfeita para Rita... E que eles no aceitariam um "no" como resposta!

PRLOGO

Ora, o que podemos fazer, seno forar Rita a chegar ao altar sob a mira de uma espingarda?  indagou Al.
Ele estava atrs do balco de seu restaurante, fitando os rostos dos outros quinze membros do conselho secreto de Hooperville, Indiana.
	Mas se ela no gosta dos rapazes que escolhemos, nem mesmo uma arma ser capaz de faz-la dizer
"sim". Quem somos nos para julg-la?
Ao acabar de falar, a esqueltica Eva May cruzou os braos sobre o peito, como se quisesse se proteger de, algum dia, o conselho tentar impingi-la quele mesmo destino.
	Soubemos que a noite passada foi um desastre total. Parece que nossa jovem espantou aquele rapaz, ameaando-o com um sapato e fazendo-o correr porta afora  falou Fred, o empreiteiro mais antigo da cidade, j aposentado.
	Ele deve ter tentado ir longe demais  opinou a esposa do velho construtor.
	Ningum, em seu juzo perfeito, tentaria fazer isso com nossa Rita.
O salo do restaurante ficou em absoluto silncio e quinze pares de ndegas comearam a se ajeitar de maneira incmoda nas cadeiras, enquanto as palavras "algum j foi longe demais" permaneceram apenas na mente de cada um.
Norm, o barbeiro, pigarreou e tomou a palavra.
	Tudo o que tentamos at agora foi to eficiente quanto "tapar o sol com uma peneira".
Como de costume, seu tom de voz se elevou a cada palavra, levando os outros a gesticularem, pedindo mais discrio. De fato, aquele era o maior problema dos encontros secretos. Cedo ou tarde, o barulho era tanto que toda a cidade acabava notando que havia uma sesso em andamento.
	Ento h algo de errado com nossas escolhas  falou Al, balanando seu queixo duplo ao dar um tapa sobre o balco.
Mais uma vez, todos se ajeitaram em seus assentos. Os sussurros pareciam capazes de unir as quinze pessoas de maneira incrvel, mesmo que algum observador externo corresse o risco de pensar que eles estavam apenas brincando de "telefone sem fio".
	Mas j tentamos aproxim-la de cada um dos bons partidos da cidade  murmurou algum, em tom desanimado.
	At mesmo aquele sobrinho de Jake, que veio de Muncie  alegou outra pessoa.
O velho Jake balanou a cabea negativamente.
	O rapaz at que estava interessado, mas isso mudou quando ele soube dos... detalhes. Eu mesmo seria voluntrio, mas acho que a bela Rita no aceitaria um velho como marido.
	Jake, s de atravessar toda a igreja, para o casamento, voc j iria parar na UTI, com uma parada cardaca.
Ao ouvir aquilo, o homem passou a mo pela prpria careca e riu.
	Ora, garanto que iria tentar durar mais do que isso. Pelo menos at o final da noite de npcias.
Eva May lhe deu um tapa to forte no ombro que ele quase caiu da cadeira. As risadas de todos ecoaram pelo lugar, fazendo-os esquecer que estavam tentando ser discretos, atrs de cortinas fechadas e  meia-luz. A um canto, at mesmo as quatro mal-humoradas irms solteironas da cidade riam em coro, cobrindo os rostos com as mos, como se tentassem esconder seu divertimento.
Al sentia sua avantajada barriga balanar no mesmo ritmo de seus ombros largos conforme gargalhava, mas mesmo assim bateu com o martelo de amaciar carne sobre o balco, pedindo ordem. Como se houvesse demorado para perceber o que fizera, arregalou os olhos e passou a mo sobre a frmica, tentando analisar o estrago que causara e soltando um suspiro.
Havia anos que aquilo se repetia, e passara da hora de comprar um martelo e um anteparo adequados para as reunies. Mesmo assim, esperou com pacincia at que o silncio voltasse a imperar e que todos os pares de olhos, mesmo aqueles que j no enxergavam to bem, estivessem voltados em sua direo. S ento voltou a falar.
	A garota mais dcil e adorvel de nossa cidade est com um pequeno problema. Como todos os presentes tiveram alguma participao na criao dela, acho que o assunto  de nossa alada. Ela precisa de nossa ajuda, mesmo que no saiba disso. Proponho que nos reunamos todas as segundas-feiras  noite, at que encontremos uma soluo a respeito de Rita.
Houve um burburinho geral ecoando pela sala. A preocupao estava estampada na expresso de cada um.
	Tenho uma notcia, mas no estou certa de que seja algo importante  sugeriu a velha Fio, cuja face rosada parecia apenas uma leve variao dos rostos de suas trs irms.
	Prossiga  murmurou um dos presentes.
	Bem, estive conversando com Betty, quando fui ao Banco Northside, e descobri que algum comprou a loja de ferragens do Harvey.
	Quem  o idiota que fez uma coisa dessas? Todos sabem que aquele novo shopping de construo levou o velho Harvey  falncia  ralhou algum.
	Minha amiga Betty disse que  um homem de Cincinnati.
	Oh, ento  um idiota da cidade grande.
	...e que vai montar uma empresa de servios hidrulicos. Parece que se trata de um encanador.
Houve outro surto de burburinhos no ambiente. Al nem se deu ao trabalho de pedir ordem. Em vez disso, bateu o martelo de carne repetidamente na prpria mo, enquanto as ideias brotavam em sua mente. Vrias cenas lhe ocorreram, e todas terminando com Rita sendo levada at o altar.
Um encanador. No era bem o tipo glamouroso que ela sempre sonhara, e provavelmente no deveria ser muito intelectual. Contudo, a situao acabara ficando crtica por causa de um homem que era ambas as coisas.
"Sangue novo", pensou. Era disso que precisavam! Isto , se tivessem a sorte de que o futuro cidado fosse solteiro, no muito feio e que tivesse bom corao. Depois, bastaria distra-lo por tempo suficiente para que ele casse na armadilha.

CAPITULO I

O restaurante de Al estava lotado com a clientela habitual para o desjejum de sbado. As pessoas costumavam ir at l para variar o cardpio no dia de descanso, incluindo nele algumas panquecas e mel enquanto faziam um pouco de fofoca.
A cena sempre parecera reconfortante e familiar para Rita Lynn, mas no naquele dia. No depois de apenas trs horas de um sono agitado. O som de talheres colidindo contra a loua estava entrando com potncia amplificada em sua mente, fazendo-a lembrar de uma britadeira. E o assobio incessante do proprietrio lhe lembrava uma sirene de fbrica.
O rudo dos clientes tambm era incmodo, pois ela poderia jurar que os estava ouvindo mastigar. O calor e o cheiro de fritura a envolviam como um pesadelo desagradvel. Estava se sentindo zonza e com nuseas. Mesmo sabendo que o sbado era o melhor dia para gorjetas, preferiria estar em qualquer outro lugar, ex-ceto ali. De fato, at Marte serviria.
"Leve-me para bordo, sr. Spock", pensou, fechando os olhos e contando at dez. Por alguns segundos conseguiu se sentir calma. Contudo, quando voltou a fitar o lugar; o mal-estar a dominou outra vez.
 Droga  resmungou.
No conseguiria chegar a lugar algum daquela maneira. Exceto  mesa quatro, claro, onde o casal que alugava o apartamento onde ela morava havia se acomodado.
Virando para a pgina seguinte de seu bloco de pedidos, lambeu a ponta do lpis e seguiu em frente.
As sete e meia da manh, o sol de vero mal havia despontado mas j iluminava o lugar com seu brilho ofuscante. Protegendo os olhos com a mo, aproximou-se de seu tio Fred e de sua tia Lottie.
	Como vai, Rita?  perguntou o velho senhor, sem desviar os olhos do cardpio.
	Est com uma tima aparncia, querida  disse Lottie, pelo menos vinte e cinco quilos mais pesada do que o marido.
"tima?", pensou Rita, indignada. Estava abatida por causa do sono e tinha conscincia disso. Sua nica esperana era que seus cabelos sempre pareciam mais viosos sob o sol da manh, que os fazia brilhar em um tom ainda mais dourado do que o normal. Fora isso, sentia-se exausta e imaginava estar refletindo seu cansao na aparncia. Contudo, no fora o insensato comentrio em si que a incomodara, mas o significado real por trs dele.
Tia Lottie estava apenas forando a conversa a atingir um nvel pessoal, para ento comear a bombarde-la com perguntas que no diziam respeito ao cardpio ou ao desjejum.
Rita alisou o avental. Quanto tempo demoraria antes que tivesse de pegar um modelo maior, que acomodasse a futura expanso de seu ventre?, perguntou-se. Trs meses? At l completaria cinco de gravidez e sua "condio" j estaria bvia.
Tempo mais do que suficiente para provar a todos que estava apta a cuidar de si mesma sem causar preocupao para a comunidade. Talvez, ento, eles parassem de tentar lhe arrumar um marido e de fazer esforos desmedidos para solucionar o que haviam classificado como seu "probleminha".
	O que fez na noite passada, minha querida?  indagou Fred.
	Sabe muito bem o que fiz. Fiquei sentada na minha sala, ouvindo o primo em quarto grau de Martha Green me explicar tudo sobre pintura de casas e sobre tintas, alm de detalhar o tempo de secagem de cada uma delas, dependendo do clima. Quando consegui me livrar dele e coloc-lo para fora de minha casa, j havia perdido meu programa favorito na televiso e estava cansada demais para estudar.
	Oh...  murmurou o velho.
Depois de ajeitar a franja com o dorso da mo, Rita levou o lpis ao bloco de pedidos, pronta para anotar, encarando ambos com ar impaciente.
	E ento? O que vo querer para o desjejum?
Ao perguntar, certificou-se de suavizar a voz. Aquele casal a acolhera durante a adolescncia e no seria justo mago-los com palavras speras. Se bem que, se levasse isso a srio, jamais discutiria com a maioria das pessoas daquela rea de Hooperville, j que eram todos seus tios e primos, embora no por parentesco sanguneo.
Teria de se esforar para provar que era capaz de continuar a viver por conta prpria, sem magoar ningum no processo.
	Acha que deveria ficar de p o dia todo dessa maneira?  indagou Fred.
Rita deu de ombros, na esperana de que a indiferena o fizesse se calar, mas sabia que isso no aconteceria.
	Quero dizer  prosseguiu ele, vacilante , devido a sua condio e tudo mais... Est com quantos meses agora? Quatro?  Fez um ar de censura.  Aos quatro meses de gravidez, eu no deixava Lottie sequer encostar a mo em uma vassoura.
	Ningum quer escutar essa histria antiga, querido  falou a velha senhora.  Alm do mais, no foi bem assim.  Desviou o olhar na direo de Rita.  Ele trabalhava dois turnos seguidos durante minha gravidez, tentando conseguir dinheiro extra para as despesas, e me deixava sozinha durante a maior parte do tempo.
	Pode ser, mas no fui embora sem mais nem menos.
Foi impossvel no perceber o chute que Lottie deu na canela de Fred, pois o velho gemeu alto e se inclinou para massagear a rea atingida.
Aquela era a atitude padro em Hooperville, pensou Rita. Todos podiam citar seu "probleminha", mas qualquer meno a Howard, seu noivo ausente, se tornara um tabu oficial. Todos estavam convencidos de que o pai da criana no retornaria e que, mesmo se o fizesse, no assumiria nada.
	No ligue para Fred  disse a sorridente senhora, voltando ao tema anterior.  Mas estamos todos preocupados, como bem sabe. J fez seus planos? O que pretende fazer?
Aquele sim fora um golpe baixo. Dois meses antes, ainda no furor do relacionamento, Howard partira em uma expedio de pesquisa pelo leste europeu. Desde ento, Rita no tivera mais notcias dele. At poucos dias antes, seu nico plano era entrar em contato com ele para lhe contar sobre a gravidez. Mas como isso no estava dando certo, decidira se empenhar apenas em superar um dia por vez.
Entretanto, guardara a deciso para si mesma. Todos na cidade, incluindo os membros do no to secreto "conselho secreto", estavam engajados em sua causa. Se tivessem a menor ideia de. quantas noites ela j havia passado em claro, preocupada com o futuro, iriam se sentir no direito de assumir controle total sobre sua vida. Com certeza, jamais a deixariam decidir algo por contra prpria outra vez.
Se pelo menos Howard telefonasse, tudo mudaria. No entanto, ele avisara que estaria em lugares distantes e inspitos, informando-a de antemo sobre a dificuldade de comunicao. As cartas que lhe enviara deveriam estar circundando o planeta. S poderia ser esse o motivo de ela ainda no haver recebido notcia alguma. Howard no a havia abandonado, como todos suspeitavam. Ele ainda a amava, assim como amaria o beb.
Os moradores daquelas redondezas no gostavam dele porque Howard morava na ala norte da cidade e dava aulas na faculdade. Aquilo a levara a estar sempre alerta quanto s suspeitas levantadas contra seu noivo. O conselho da cidade sempre conseguia atingir duramente a credibilidade de uma pessoa, quando desejava.
Mas isso no aconteceria no caso dele. Rita conhecia Howard e confiava nele. Amava-o. E adorava o fato de estar esperando um filho dele. Era bvio que ela e o beb iriam se sair muito bem. At mesmo sozinhos, se fosse necessrio. No entanto, quando isso lhe ocorreu, sentiu-se invadida por uma estranha sensao de desalento.
 J pensou no assunto querida? O que pretende fazer?
Ao ouvir a voz de Lottie repetindo a pergunta, Rita voltou a notar que estava no restaurante.
 Bem, em primeiro lugar, tirarei o pedido de vocs e o entregarei para Al. Pedirei a ele que no deixe o bacon queimar, como da ltima vez.
Rita observou o rosto rosado de Fred empalidecer um pouco ao mesmo tempo que Lottie pressionou os lbios, franzindo o cenho. Envergonhada pelo tom que usara, escreveu no bloco o que j sabia ser o pedido tradicional dos dois e o leu em voz alta, esperando pela confirmao, que no passou de um breve "isso" por parte do velho.
O que estava acontecendo com ela?, Rita se censurou. O casal s estava expressando preocupao com seu bem-estar.
Porm, era justamente esse o grande problema de Hooperville: todos expressavam suas preocupaes de uma maneira explcita demais, sempre tinham algum palpite para dar ou ento algum parente vido para se oferecer "em sacrifcio".
S porque cada uma daquelas pessoas participara de sua criao desde que seus pais haviam morrido, no significava que ela no estivesse apta a viver por conta prpria. Estava com vinte e quatro anos e sabia muito bem o que queria. Talvez precisasse apenas se acostumar a ser ura pouco mais agressiva. Do contrrio, os amigos nunca a deixariam em paz.
Depois de colocar o pedido sobre o balco da cozinha, pegou um pano mido e se dirigiu ao fundo do restaurante, onde trs clientes haviam acabado de desocupar uma mesa. Era hora de limp-la.
Com as moedas da gorjeta tilintando no bolso e os pratos equilibrados em um dos braos, inclinou-se para abrir as cortinas da janela lateral, que os homens haviam deixado fechadas.
Apesar do intenso brilho do sol incidindo sobre seus olhos, foi impossvel no notar o agrupamento de pessoas do outro lado da rua. Eram todos conhecidos: alguns fazendeiros em visita  cidade, tio Norm, dono da barbearia do bairro, o carteiro da cidade e outros. Na maioria, membros do conselho secreto.
Sem perceber, ficou a observar, curiosa, a estranha reunio em frente  loja fechada de Harvey. Ento a porta foi aberta e o inusitado pblico se separou, lembrando um zper que se abrira de repente. Um homem que ela jamais vira antes saiu para a calada.
O desconhecido tocou a aba do bon, cumprimentando os presentes. Enquanto Rita questionava qual poderia ser o motivo daquela aglomerao, no pde deixar de notar o porte atltico do atraente desconhecido, principalmente quando ele se virou de costas para o restaurante e cruzou os braos para olhar a recm-lavada vitrine.
A cala jeans era justa e revelava pernas grossas e musculosas. A camiseta regata era to aberta nas laterais que parecia haver sido feita sob medida para revelar os ombros largos e fortes, alm da pele bronzeada.
	E o novo proprietrio  disse Al.
Rita pulou de susto e a pilha de loua que at ento estivera equilibrada em seu brao foi parar no cho.
	Al! No se aproxime em silncio desse jeito 
ralhou ela.
Ele olhou para baixo, observando a barriga avantajada. Ento esforou-se para conseguir se abaixar e ajud-la a recolher a loua quebrada.
	Acha que algum do meu tamanho  capaz de fazer algo como uma "aproximao furtiva"?  perguntou, sorrindo com ar desolado.  Ah, sim, o nome dele  Nate Morrow.
	De quem?
Ambos se levantaram e ele se afastou, levando parte dos cacos.
 Certo, certo. J vi que no est interessada. De qualquer maneira,  um rapaz bastante esforado. Est trabalhando l dentro desde antes de eu chegar ao restaurante, hoje cedo.
Parada ao lado da mesa, Rita espiou mais uma vez pela janela. O sr. Morrow estava gesticulando para que as pessoas entrassem em sua loja. Antes de segui-los, voltou-se para a calada oposta e comeou a observar as outras lojas por alguns segundos. O restaurante seria o prximo em sua linha de viso.
Sem hesitar, Rita se afastou da janela. S voltou a olhar quando teve certeza de que no seria mais vista. A rua ficara vazia e a porta da loja de ferragens estava fechada. Dando de ombros, virou-se a tempo de flagrar todos os clientes se voltando depressa para os prprios pratos.
Naquela cidade, no era seguro olhar duas vezes para nenhum homem. Se no tomasse cuidado, os cidados de Hooperville os colocariam no altar antes mesmo que pudessem se apresentar um ao outro.
Depois de jogar os cacos no lixo, foi at o balco de dentro, verificar o pedido em andamento. S faltavam os ovos fritos especiais para completar o desjejum de seus tios. Como no havia muito movimento naquele momento, Rita decidiu esperar.
Al raspou a chapa com a esptula e ento passou o pano molhado por sua superfcie. Cantarolando enquanto trabalhava, fazia sua voz desafinada se misturar ao rudo da poro de margarina que acabara de ser colocada sobre o metal quente e que comeava a derreter. Sobre a pequena poa que surgia, dois ovos foram quebrados.
De repente, o forte odor da gordura do bacon que j estava preparado, misturado ao cheiro do caf re-cm-torrado e dos ovos sendo fritos pareceu se tornar denso demais para o pequeno-ambiente. Rita sentiu um n na garganta e uma convulso no estmago. Um leve gosto de leite azedo lhe veio  boca.
O gordo cozinheiro continuou cantarolando, mas Rita teve certeza de que estava sendo observada. Foi preciso muita fora de vontade para resistir ao impulso de correr para o banheiro. Se o fizesse, teria de ir para l todas as vezes que um odor a desagradasse. E, naquele restaurante, isso poderia significar que ela jamais voltaria a ver a luz do sol.
No, no poderia se deixar vencer pelo enjoo. Precisava pensar em outra coisa. Qualquer assunto que a distrasse daquela tortura aromtica.
	Com um novo shopping de construo aqui perto, quem seria tolo o suficiente para comprar a loja falida de Harvey?  indagou ela.
Afinal, aquele assunto era to bom quanto qualquer outro.
	Pelo que entendi...  Al fez uma pausa para colocar os ovos mexidos e malpassados no prato  ...o rapaz  de Cincinnati.
	Hum, da cidade grande. Acho que isso no o exime da necessidade de pesquisar e analisar os riscos, antes de investir em um negcio.
	Acho que ele o fez, j que no est abrindo outra loja de ferragens.  um encanador. Alis, segundo ele prprio, tcnico em hidrulica. Interessada?
Rita abriu a boca para protestar no instante em que a bandeja com o pedido foi colocada a sua frente. Sua voz desapareceu em meio  contrao em sua garganta.
Tudo o que fez foi engasgar ao ver as fatias de bacon em meio  gordura derretida, ao lado de um pequeno amontoado de clara e gema mexidas e encharcadas de margarina. Com um gemido, cobriu os lbios.
	O que foi?  indagou Al, virando-se a tempo de v-la empalidecer e correr para o toalete.
Nate Morrow trocou apertos de mo com todos que entraram em sua loja, enquanto gravava na mente o nome de cada um deles. Isso era importante em uma cidade pequena. Principalmente para algum com a sria inteno de se estabelecer, manter laos estreitos de amizade e ainda assim continuar tendo um pouco de privacidade.
Aps as apresentaes, esperou pela enxurrada de perguntas. Sabia que no seria intromisso por parte deles, mas apenas uma tentativa de identificar quem era o recm-chegado e encaix-lo na ordem local das coisas.
Em cidades pequenas, as pessoas dependiam dos vizinhos. Nina, sua-falecida esposa, deixara isso bem claro. Era preciso saber se o morador da casa ao lado era uma pessoa humilde, porm prestativa, ou algum dado a bravatas, mas que desaparece na hora das emergncias. Era justo dar-lhes o tempo e a oportunidade de descobrirem quem ele era.
Voltando a pegar o pano de limpeza e mergulhando-o no balde com gua e sabo, dirigiu-se para a estante seguinte. Porm, antes de o pano tocar a primeira prateleira, irrompeu-se a pergunta inicial do "inqurito".
	H quantos anos trabalha como encanador?
	 o primeiro ano que trabalho nisso por minha prpria conta  respondeu Nate, deixando que a informao se espalhasse entre as pessoas.
Era evidente que estavam prestando ateno em sua aparncia, perguntando-se a respeito de sua idade. Afinal, ganhara alguns fios de cabelos brancos prematuramente, sete anos antes, aos vinte e sete anos de idade, quando sua esposa adoecera. Mas no havia como seus novos vizinhos saberem do fato e no seria agradvel lhes explicar isso.
	Nesse caso, deve ter trabalhado muitos anos para alguma empresa de hidrulica.
	No muito. Dois anos como aprendiz mais um como tcnico independente. Tenho trabalhado sozinho desde que consegui a licena.
	Primeiro ano...  murmurou um dos homens, em um misto de curiosidade e admirao.
	E o que fazia antes disso?  indagou Norm, o barbeiro.
	Era advogado da vara cvel. Especializado em litgios.
Como era esperado, todos se afastaram, parecendo haver sido empurrados pelo "peso" de uma autoridade.
	Mas isso aqui  Nate indicou a loja, sorrindo ,  mais parecido comigo. Sempre quis trabalhar com
minhas prprias mos.
A turba voltou ao lugar anterior, ou melhor, um pouco mais para perto.
	Ento voc  um garoto da cidade grande?
Aquela pergunta s poderia mesmo ter vindo do mais velho entre eles. Quem mais consideraria um homem prestes a completar trinta e quatro anos como um garoto?
	Nasci e cresci em Cincinnati, mas no me culpem por isso. Sa de l assim que criei juzo.
Assim que Nate acabou de falar, as risadas dos visitantes ecoaram pelo lugar. Naquele clima de docilidade, todas as questes imaginveis foram feitas, cobrindo cada rea de sua vida. Ao longo do processo, prateleiras ficaram limpas, o cho passou a brilhar e os vidros se tornaram reluzentes.
No entanto, nenhum dos presentes se ofereceu para ajud-lo. Em vez disso, andavam de um lado para outro, conversando entre si e dirigindo-lhe perguntas espordicas.
De fato, a descrio de Nina sobre a iniciao de um recm-chegado em uma cidade pequena havia sido muito precisa. Graas  orientao dela, Nate estava at conseguindo se sair bem. Mas era impossvel no rir de vez em quando.
"Obrigado, querida", agradeceu em pensamento.
Como sempre, sentiu um aperto no peito. O vazio sempre ameaava voltar quando pensava na falta que sentia de Nina. Poderia ser sua imaginao mas, naquele momento, pensou ter ouvido a voz dela em sua mente, dizendo: "Nate, fique tranquilo, jamais estar sozinho".
Respirando profundamente, largou o pano no balde e enxugou o suor com as costas do brao, aproveitando para fechar os olhos e se recompor. Depois da maratona de limpeza, precisava de um descanso ou acabaria acreditando que Nina estava mesmo falando em seu ouvido.
Contudo, seus convidados ainda no haviam abordado um dos assuntos bsicos. Ningum perguntara sobre "esposa e filhos". Em uma cidade pequena, aquele assunto parecia servir de referencial para se julgar a responsabilidade de uma pessoa. As mulheres eram mais diretas para perguntar sobre isso, enquanto os homens sempre achavam um meio mais indireto de obter respostas.
Na verdade, pouco importava que a cidade fosse pequena ou grande. Cedo ou tarde, o interesse das pessoas se voltaria para seu estado civil. E, a partir dali, o foco seria centrado em outro objetivo: cas-lo com algum.
Pois os casamenteiros de planto teriam uma surpresa. Aquele vivo, ningum casaria. Depois de ajudar a terminar uma grande quantidade de unies desastrosas, estava mais do que consciente de que no valia a pena se arriscar. Tivera um casamento feliz e perfeito, mas sua esposa morrera. Alm do mais, quem havia escrito que um homem no poderia passar dos trinta e continuar sozinho?
Suspirando, inconformado, tirou a camiseta e comeou a us-la para enxugar o suor do prprio peito, quando algum falou:
 Aposto que deixou alguma linda mulher esperando por voc l em Cincinnati. Estou certo?
Em sua mente, uma voz ecoou: "Bingo!"
Eram apenas nove horas da manh e Rita teria de suportar mais cinco horas. No conseguia imaginar como conseguiria trabalhar no horrio do almoo. As pessoas costumavam pedir muitas frituras e, se havia algo que poderia mand-la de volta ao banheiro, seria o cheiro de leo queimado.
Ainda assim, exceto pelo desastre quase ocorrido diante daquele desjejum explosivo, ela estava controlando bem o estmago. Se no ficasse ansiosa, o dia logo acabaria.
Havia comeado a limpar uma mesa quando precisou abrir outro par de cortinas. Antes de espiar a loja, do outro lado da rua, olhou na direo de Al para ver onde estava seu velho amigo e patro. Por sorte, ele estava concentrado em mexer em algo embaixo da pia.
Sem imaginar o que ele poderia estar fazendo, ela desconsiderou a estranha situao e passou a observar a loja em frente.
A vitrine estava cristalina de to limpa. No interior, os cidados andavam de um lado para outro, feito calouros visitando a sede do clube dos veteranos. No era possvel ver Nate Morrow, que deveria estar sentado em meio  comitiva de "inqurito". Aquela altura, a histria da vida dele j deveria ser domnio pblico.
Com certeza, tambm j estavam cientes do estado civil dele. O time dos casamenteiros era sempre o primeiro a atacar quando aparecia um homem diferente na cidade.
 Espero que tenha esposa e meia dzia de filhos  sussurrou Rita.  Pelo bem de ns dois.
De sbito, a porta da loja se abriu e todos saram para a calada. O novo proprietrio foi o ltimo a deixar o lugar, ajustando o bon e j vestido com outra camiseta. Algo que foi dito levou todos a apontarem na direo do restaurante de Al.
Rita largou a beirada da cortina e se afastou, temendo haver sido vista. O que ele pensaria se a flagrasse espionando? Pensaria que estava em uma cidade de fofoqueiros. Curiosa em saber se havia sido rpida o bastante, decidiu olhar outra vez, mas de maneira mais discreta.
Seus dedos mal haviam tocado o tecido para ergu-lo, quando ela foi interrompida por um grito. Al estava berrando, de algum lugar da cozinha, xingando e pedindo ajuda ao mesmo tempo.
Pela segunda vez naquele dia, Rita deixou cair uma pilha de pratos, talheres e copos. Entretanto, o som de loua se estilhaando mal pde ser ouvido, graas ao rompante do cozinheiro. Antes de recolher os cacos, ela tratou de correr em socorro de seu amigo.
Al ainda estava sob a pia, mas j no to prximo. Embora parecesse estar acuando um animal, na verdade estava apenas tentando conter um vazamento no encanamento. A gua espirava para o alto e se derramava sobre sua cabea quase careca, escorrendo por seus raros cabelos laterais e pelo rosto. Lufadas de gua lhe escapavam por entre os dedos, encharcando a cozinha.
Rita agarrou uma toalha de mesa e envolveu o vazamento, prendendo as mos dele no processo.
	O que aconteceu?  perguntou a Al.
	Como posso saber? Em um instante eu estava lavando os pratos, no seguinte, enfrentando um maremoto!
Quando Al tirou as mos, ela apertou o torniquete. A gua perdeu um pouco da presso.
	No se mova  ordenou ele.
	O qu?
	Fique a que eu j volto.
	No pode me deixar aqui assim. Para onde est indo?
	Espere.
O sorriso dele ao passar pela porta era um mau sinal.
	Volte! No me deixe segurando isso aqui!
Um jato de gua escapuliu do pano e acertou o rosto dela, interrompendo seus protestos. Ao tentar ajustar a toalha, a junta danificada comeou a vazar mais, ensopando-a por completo antes de ser possvel arrumar o pano no novo foco de presso.
	Eu ainda mato voc, Al  resmungou, estreitando o olhar e estrangulando o cano com a toalha.
J estava ficando com as mos enrugadas quando a porta se abriu e metade da populao da cidade tentou entrar ali. Fechando os olhos, sentiu-se como um animal em exposio no zoolgico.
	Quando disse que sua garonete havia feito uma enorme confuso, Al, pensei que estivesse exagerando  disse algum em tom grave e profundo, que ela no reconheceu.
	O qu?  indagou Rita, virando-se e se surpreendendo com a figura mscula do novo encanador da cidade.  Eu...
Como Al ousou culp-la? O desejo de se defender competiu com a vontade de acusar seu prprio patro. Na dvida, encarou Nate Morrow. Aqueles olhos castanhos capturaram-lhe a ateno e a deixaram paralisada. Eram brilhantes e perscrutadores, mas expressavam calma e divertimento. Ele estava se divertindo com aquela situao! Era melhor esquecer a ideia de se defender e comear a procurar um lugar onde enterrar a cabea na areia. Areia seca, de preferncia.
	Eu...
Ela comeou a falar outra vez, retirando a mo do pano para ajeitar a franja encharcada, que estava atrapalhando sua viso.
	Ei, espere a  disse Nate, segurando-lhe o brao em meio ao movimento e fazendo-a voltar  posio anterior.  No se mova.
A mo dele cobriu a dela por completo durante alguns segundos. Ao sentir o contado se interromper, Rita experimentou uma estranha sensao de vazio no peito. Mesmo querendo parar de encar-lo, no pde faz-lo.
	Eu...
O modo como ele ergueu a mo a levou a se calar. Boquiaberta, observou ele se curvar a seu lado para olhar o vazamento. Aqueles ombros bronzeados, brilhando graas  umidade, pareciam querer saltar para fora da camiseta. Os cabelos escuros, quase negros, pareciam macios e rebeldes, permanecendo ondulados mesmo quando molhados. Alguns fios prateados pareciam se ocultar entre a maioria escura, dando um charme ainda maior quele raro tom de castanho.
Seus olhos eram joviais e sbios ao mesmo tempo. O sorriso discreto parecia to sincero que lhe provocou um agradvel arrepio, fazendo-a sentir-se feliz por estar ali. Mas apenas por um instante.
Nate inclinou a cabea, com ar questionador.
 O que foi?  indagou ela, imitando o movimento dele.
Quase tocando a perna dela com a mo, ele gesticulou para que Rita se afastasse um pouco. Foi obedecido de imediato.
Sorrindo ainda mais, ele balanou a cabea afirmativamente e se espremeu no estreito espao entre a pia e... as pernas dela!
CAPTULO II

Quando Nate ouviu Rita fechar a porta ao fundo, virou-se apenas o suficiente para v-la entrar novamente no recinto. Embora no entendesse o motivo de se importar com sua indiscrio, fez o possvel para no ser visto observando-a.
Uma coisa era bvia: v-la desfilar com aquele uniforme simples e discreto parecia muito mais interessante do que olhar para sua xcara de caf.
Mesmo tendo um aspecto delicado, Rita parecia muito forte e segura se si. Pelo menos foi o que percebeu quando a avistou parar no corredor, para endireitar os ombros antes de prosseguir. O que quer que ela houvesse feito no toalete, ajudara a melhorar o tom de sua pele. Embora ainda estivesse com ar cansado, a palidez a abandonara por completo.
O brilho daqueles olhos azuis afastava qualquer impresso de fragilidade. De alguma forma, ela tambm conseguira secar o uniforme. Os cabelos dourados pareciam mais escuros por causa da umidade e estavam presos em um rabo de cavalo. Muito interessante... Sim, essa era a nica descrio imparcial que poderia fazer a respeito dela.
Rita passou por ele, indo para trs do balco, e pegou o bule. Ento comeou a andar de costas, voltando pelo mesmo caminho e preenchendo as xcaras dos homens que o haviam seguido at o restaurante, depois da "santa inquisio".
Conforme prosseguia em sua tarefa, ela trocava algumas palavras com cada um deles, mas no ficava parada por tempo suficiente para conversar de verdade. A certa altura, viu-a rir com ironia, como se desaprovando um comentrio.
Nate, por sua vez, no foi agraciado com nada daquilo. Ao se aproximar dele, Rita se comportou com total indiferena e seriedade. Parada do outro lado do balco, segurando o bule e fitando a xcara, ela perguntou:
	Quer mais caf?
	Espero que no tente fazer mais nenhum servio de encanamento  disse ele, colocando a mo sobre a boca da xcara.  Voc afrouxou tudo o que no estava colado nem enferrujado.
Ao acabar de falar, foi fitado com intensidade por alguns segundos, mas o alvo seguinte foi Al, que recebeu um olhar fulminante. O rosto dela ficou enrubescido, mais por indignao do que por vergonha.
	Ou talvez ns devssemos formar uma parceria secreta  prosseguiu ele.  Sua tarefa seria ir na frente e mexer nos canos, enquanto eu iria logo depois, para consertar a confuso.
Sem saber o que o levara a dizer tal coisa, Nate logo se arrependeu. Ao se virar para voltar a encar-lo, Rita virou o bule, que j estava inclinado, derramando caf quente sobre a mo dele.
Nate se sobressaltou, fazendo a xcara tombar. O caf comeou a escorrer pelo balco, rumo  borda. Mais do que depressa, ele saiu do banquinho, recuando por cima do encosto que, por sorte, era baixo. O lquido quente pingou a alguns centmetros de sua perna, ainda em movimento. Mais do que depressa, aqueles que estavam ao redor vieram em seu socorro, retirando guardanapos dos suportes e enxugando o estrago.
Ao longo de todo o acontecimento, Rita ficou paralisada, com os olhos arregalados. Ao v-la voltar a ficar plida, Nate sentiu-se culpado por hav-la provocado.
Enquanto a fitava, notou que a mo que segurava o bule comeou a tremer. Seria o indcio de um desmaio ou o prenncio de outro banho de caf quente?
	Ei  disse ele, segurando a mo dela com firmeza.  Mais um acidente e ir passar o resto do jogo no banco de reserva.
O olhar de Rita se fixou em sua mo. Ento a viu enrubescer e lanar um olhar fulminante para os outros homens sentados diante do balco.
	Pode me soltar. No vou lhe dar outro banho de caf. Prometo.
Mesmo assim, Nate no a soltou enquanto o bule no ficou a uma distncia segura sobre o balco. Ao examinar a mo, procurou por algum indcio de formao de bolhas. Encontrou apenas uma, mas bem grande. Aparecera na lateral da mo e se estendia desde a base do dedo mnimo at o pulso.
	Ficou bem feio  disse ela.
	"Doloroso" seria a palavra mais adequada.
	Sinto muito. Vou buscar algo para cuidar da queimadura.
	Desde que no seja mais caf...
Rita hesitou um momento, antes de sorrir e deixar o recinto. Quando retornou, trazia um pote de pomada consigo.
	Esse  o remdio de Al para as queimaduras que qualquer um venha a sofrer por aqui.
Enquanto falava, ela espalhou um pouco da pomada na lateral da mo dele. O produto absorveu o calor ardente da queimadura, abrandando o incmodo que o ferimento causara em Nate. J o toque suave daquela mo contra a sua estava provocando outro tipo de reao.
	Obrigado pelo tratamento.
Ao agradecer, retirou a mo das dela e a colocou sob o balco.
	Deixe-me colocar uma bandagem.
	No precisa.
	De qualquer maneira, acho que lhe devo algo. Que tal um desjejum? Talvez ovos mexidos e outro caf?
	Apenas suco de laranja. Vamos  parte fria do cardpio, est bem?
O sorriso de Rita foi tmido, como se ela no estivesse certa de se tratar de uma brincadeira. Ao v-lo corresponder com bom humor, seu rosto suave demonstrou grande alvio, mas voltou a enrubescer.
O contraste o levou a lembrar da facilidade com que a vira empalidecer. Talvez Rita estivesse precisando de frias ou de uma folga. Mas aquilo no lhe dizia respeito. E se ela tivesse trs filhos para alimentar e um marido desempregado? Com certeza, no poderia se dar ao luxo de faltar no trabalho.
Se fosse esse o caso, poderia contratar o marido dela como assistente em sua loja, se ele se interessasse. Nate decidiu investigar, mas no sabia ao certo por onde comear. De qualquer maneira, sentiu que precisava dizer algo.
"La vou eu de novo, ao resgate dos problemticos", pensou. No teria aprendido ainda que era errado se envolver na vida dos outros? Aquilo sempre acabava por frustr-lo. s vezes, at o culpavam por haver causado ainda mais problemas.
	S isso?  indagou Rita.
Ele pestanejou. No tinha noo de quanto tempo estivera fitando-a. S tinha certeza de que fora o bastante para se tornar o centro das atenes.
Todos no restaurante estavam olhando para ele. Com as mos nos quadris e a cabea inclinada, Rita o encarou, j sem o menor trao de sorriso. A forma como mordeu o lbio inferior foi o nico indcio de que no o estava censurando.
	Apenas o suco  respondeu.
Graas ao treinamento de sua primeira profisso, Nate aprendera a controlar o tom de voz. Assim, conseguiu aparentar uma naturalidade que estava longe de sentir.
Observou Rita ajeitar a franja com as costas da mo e caminhar at o espremedor de laranjas. Sua atitude no demonstrou nenhuma hostilidade. Aquilo o agradou.
Vendo-a de costas, Nate no conseguiu deixar de admirar o corpo esguio e curvilneo. A cintura fina e os quadris arredondados formavam um conjunto mais perfeito do que o de qualquer garota acostumada a frequentar as academias de Cincinnati. Tivera muitas oportunidades de conhec-las, j que seus amigos insistiam em lhe apresentar cada moa solteira que conheciam, tentando "ajud-lo".
O ranger de seu prprio banquinho o assustou. Estivera paralisado outra vez? Desde a morte de Nina, dispensara muito pouco tempo olhando para outras mulheres. Mas qualquer um que o observasse naquele momento poderia acus-lo de estar observando Rita com ar de desejo.
O suco lhe foi servido em seguida. O homem que ocupava o banco ao lado do seu escolheu aquele momento para falar:
	A nossa Rita est  procura de um marido. Sim, senhor... E  a moa mais prendada da cidade!
Em vez de se voltar para o baixinho careca que dissera aquilo, Rita fitou o rosto de Nate. Seus olhares se encontraram. O que estava vendo ali?, ele se perguntou. Embora estivesse presenciando um rpido processo de enrubescimento, o que ele via naquelas jias azuis era um brilho bem mais intenso do que aquele que poderia ser gerado por um mero embarao.
Droga. L estava ele paralisado de novo.
	Boa sorte  disse, levantando o copo em um brinde.
Ento Rita no era casada. "Cuidado, rapaz", disse a si mesmo. "Esta pode at ser uma cidade pequena, mas as pessoas daqui parecem competentes para fazer um esquema casamenteiro bastante sofisticado."
Mas aquilo no importava, j que ele no se considerava disponvel para se casar com quem quer que fosse. E logo todos saberiam disso.
Concentrou-se ento em beber o suco, fazendo-o de uma s vez. S baixou o copo quando este j estava vazio. Despediu-se de seus companheiros de balco e girou o banquinho de uma s vez. Queria sair dali sem acompanhantes.
Recolocando o bon que retirara ao se sentar, abaixou a aba at esconder os olhos e atravessou o salo. Quando colocou a mo no puxador da porta, esta se abriu de repente, tirando-lhe o equilbrio... e a oportunidade de uma sada perfeita.
	Ei, senhor encanador  disse o homem corpulento que estava obstruindo a passagem , a porta de sua loja estava aberta e o telefone tocou de maneira to insistente que tomei a liberdade de atender.
"Intrometido", pensou Nate. "Prestativo", ecoou a voz de Nina, em sua mente.
Se todos na cidade fossem assim, talvez pudesse ele dispensar a compra de uma secretria eletrnica. Arqueando as sobrancelhas, gesticulou para que o homem prosseguisse.
 Parece que a sra. Mayfield est tendo problemas com a mquina de lavar. O monstrengo saltou para o meio da lavanderia e levou o encanamento junto  exagerou ele.
Aps entregar um pedao de papel com o endereo anotado, explicou como chegar l. Outras pessoas se aproximaram e, enquanto Nate atravessou a rua e carregou sua perua com equipamentos e peas, recebeu a descrio de seis caminhos diferentes para chegar at l.
Saiu ento rumo  tal casa azul, onde havia uma mquina de lavar que andava. No havia nem mesmo feito a inaugurao oficial da loja e j estava atendendo sua segunda emergncia. Hooperville poderia se tornar o paraso de um encanador, ou seu pior pesadelo.
"Paraso ou pesadelo mesmo", pensou Nate, ao dar a ltima volta na chave de boca.
Levantando-se, fez um movimento de alongamento e estalou as costas, massageando os prprios ombros. Cansao era pouco para descrever como se estava se sentindo. Enquanto concertava a lavadora, algum ligara para a sra. Mayfield. Para sua surpresa, era uma pessoa precisando de seus servios. Ao acabar, seguira direto para l, de onde partira para outra emergncia, ento para outra... At que acabou perdendo a conta.
Era incrvel, mas todos pareciam saber onde ele estava! O novo chamado parecia chegar em sincronismo com o trmino do trabalho em execuo. Hooperville tinha um sistema de encanamento desastroso, mas um servio de informaes excelente.
Se fosse paranico, iria suspeitar de sabotagem. Mas esse tipo de problema no existia em cidades pequenas.
	Bem, sr. Colby  disse Nate, dirigindo-se ao velho senhor de p a seu lado , o encanamento est melhor do que quando era novo. Troquei os canos desta pia e j verifiquei as outras, em busca de vazamentos. Prometa que ir parar de bater nas torneiras com seu martelo e tudo ficar bem.
	Sempre funcionou antes  resmungou o homem, enquanto atravessava o banheiro.
Estava to trmulo quando pegou a carteira que Nate ficou curioso em saber como ele conseguira segurar um martelo e golpear os canos com tanta fora. Viu-o pegar uma poro de notas bastante amassadas de um dlar. Comeou ento a separar algumas e arrum-las. Parou quando completou vinte dlares.
	Isso deve bastar, no? Imagino que os preos subiram bastante desde que eu tinha sua idade. No precisava pedir ajuda naquela poca. Costumava fazer tudo sozinho.
	Oh.
Sem saber como agir, j que no lhe fora perguntado o preo do servio, Nate ficou apenas parado, olhando para a mo do velho.
	Nem pense nisso. Pegue. No aceito caridade  insistiu o sr. Colby, pressionando as notas contra a palma da mo dele.
	T-tem certeza?  gaguejou Nate.
	Claro que sim.
	Hum, tambm no aceito gorjeta  falou ele, devolvendo dez dlares ao velho.  Os preos no subiram tanto assim.
Ao acabar de falar, rumou para a porta. Quando chegou  loja, j estava se sentindo atordoado de cansao. Largou a sacola de ferramentas logo ao lado da entrada e se acomodou na cadeira reclinvel do escritrio. A pea antiga, deixada l pelo antigo proprietrio, no oferecia o menor conforto. Mas mesmo com dor nas costas, no teve nimo para voltar a se levantar. Mal podia se mover.
Tudo o que fez foi fechar os olhos e imaginar que estava subindo a escada e se acomodando na cama, no andar superior. Ou melhor, primeiro iria mergulhar na banheira e ficar imerso na gua quente, at que seus msculos doloridos parassem de incomod-lo.
Iria ficar por l durante horas, se conseguisse reunir nimo suficiente para vencer a escalada. J podia at sentir seus msculos relaxando e os braos boiando na superfcie da gua quente. Parecia estar flutuando. Aquilo era delicioso...
Ento ouviu um rudo agudo. O som vinha de algum lugar distante e dava a impresso de que j estava comeava a fazer parte de seu banho. Contudo, o barulho comeou a se aproximar a ponto de incomod-lo.
A situao se tornou insuportvel e, quando ele tentou se mexer, sentiu que estava caindo. Com um sobressalto, descobriu-se ainda na cadeira, mas com a sensao de que acabara de cair naquele lugar.
Demorou um pouco mais at identificar que o rudo infernal era o telefone. Havia acontecido outra vez. Dormira como um urso em hibernao. Aquelas crises de sono pesado ainda acabariam prejudicando-o de alguma forma. Com muito esforo, pegou o aparelho e atendeu o chamado. A voz do outro lado da linha o fez despertar no mesmo instante.
 Espero que no seja muito tarde, mas tivemos um pequeno acidente por aqui.
Em seu pensamento, uma nica pergunta se formou, enquanto arregalava os olhos: "E realmente Rita? A mesma que est  procura de um marido?"

CAPITULO III

Sua covarde! Egosta!", acusava-se Rita, em pensamento. Estava na casa da sra. Sadie, vendo-a desesperada por causa do entupimento do vaso sanitrio, que inundara o banheiro, mas tudo o que conseguira pensar era no fato de que iria se reencontrar com Nate Morrow.
Chegara at a alimentar a esperana de que ele no aparecesse, mas l estava ele, em carne e osso... e msculos, diante da porta.
	Qual o problema? Outra pia esguichando gua?
A voz dele parecia a de algum mais do que exausto.
Embora no parecesse mal-humorado, tambm no havia nenhum trao de simpatia em sua voz.
	No, no  a pia  disse Rita.
	 o toalete  explicou a sra. Sadie.  O vaso sanitrio entupiu.
Soltando um suspiro, ele atravessou a sala e seguiu na direo indicada pela anfitri. Depois de murmurar algo sobre preparar um ch, a velha senhora se retirou para a cozinha. Sentindo-se insegura na presena dele, Rita precisou conter o impulso de pegar suas coisas e sair correndo dali.
Chegara uma hora antes, levando o jantar que preparava todos os dias para a boa velhinha, ao final do expediente. Sempre lhe fazia companhia durante a rpida refeio, antes de seguir para casa ou para a escola, dependendo do dia.
Naquela noite, precisaria esperar que Nate acabasse o que quer que tivesse de fazer. No teria coragem de deixar a sra. Sadie sozinha com um desconhecido dentro de casa. Mas isso tambm no significava que iria se submeter a tomar ch com ele.
Por isso, foi at a cozinha, tentar impedir a preparao da bebida. Continuava engajada em dissuadir aquele "ch noturno" quando ouviu a voz grave de Nate chamando-a de volta e pedindo um esfrego. Com sorte, o servio j devia ter terminado, pensou Rita.
Ao chegar ao banheiro, viu-se obrigada a parar  porta. A gua chegava a cobrir a beirada da sola das botas de Nate. Apenas o pequeno degrau de mrmore,  entrada, impedia que a gua avanasse pelo corredor.
	Faz alguma ideia de como isso foi parar l?  indagou Nate, segurando uma grande pea de algodo, toda encharcada.
	Isso  um suti.
	Exatamente. Lugar estranho para lavar roupas ntimas. Por acaso  seu?
Rita examinou a etiqueta da pea. Como imaginara, era do menor tamanho que existia. Vrias explicaes do motivo pelo qual aquilo no poderia ser seu lhe vieram  mente, mas no pretendia entrar em detalhes com ele.
	No, no .
Com seios do tamanho dos seus, ela jamais conseguiria vestir algo to minsculo. Se houvesse tentado us-lo quando tinha doze ou treze anos, talvez fosse capaz de faz-lo. Mas no dos quinze anos em diante.
	Bem?  murmurou ele, desviando o olhar para os seios dela. 
No mesmo instante, Rita sentiu seus mamilos intumescerem. O que havia de errado com ela? Por que estava se deixando afetar daquela maneira? Se seu corpo queria se comportar como o de uma adolescente, poderia pelo menos esperar pelo retorno de Howard.
O mero conceito de que poderia estar tendo uma atitude de infidelidade a incomodou muito, mas no impediu seu corpo de continuar reagindo, tornando sua excitao ainda mais evidente. S lhe restava cruzar os braos e torcer para que esta no houvesse sido notada.
	Entendo  disse Nate, deixando claro que a ttica dela falhara.
Jogando o esfrego na direo de Nate, Rita ficou observando o cabo de madeira escapar das mos dele e cair no cho, atingindo primeiro a gua e depois o piso. No conseguiu deixar de sorrir com deboche, mas tornou-se sria quando se virou e viu a magrrima sra. Sadie atrs dela, dizendo:
	No, no, querida. No se deve deixar um cavalheiro ver suas roupas ntimas, nem mesmo no varal.
Ao terminar de falar, a mulher balanou a cabea negativamente.
	Mas, sra. Sadie!
Seu protesto foi interrompido de imediato, pois a velha prosseguiu:
	De qualquer maneira, estou feliz em ver que esto se entendendo. Gosto muito de ver um bonito relacionamento nascendo entre dois jovens.
	No, a senhora entendeu tudo errado...
Outra vez, Rita foi interrompida.
	Oh, voc parece to cansado, rapaz  falou a sra. Sadie, voltando-se para Nate e sorrindo.  Passou o dia ocupado?
	Ocupado? Atendi mais chamados de emergncia hoje do que costumava fazer em Cincinnati em uma semana inteira! Casos muito estranhos. O sistema de encanamento de Hooperville parece haver entrado em colapso de uma s vez. Como podem me explicar isso?
	Sincronismo  responderam as duas ao mesmo tempo.
	E voc?  Nate olhou de maneira direta para Rita.  Esteve envolvida em dois dos problemas mais esquisitos. Coincidncia?
	Digamos que seria apenas uma das inconvenincias da vida em uma cidade pequena  respondeu ela, olhando de soslaio para a anfitri, com ar acusador.
A sra. Sadie saiu do raio de viso dela o mais depressa que pde, dizendo:
	Oh, o ch. Preparei minha receita especial para ns.
	No posso ficar  disse Rita, ouvindo Nate falar algo parecido antes de concluir:   muita gentileza sua, mas preciso ir.
	Eu tambm  avisou ele.
	Oh  sussurrou a mulher, cujo sorriso desapareceu por um instante e ento pareceu retornar, ainda mais fulgurante.
Aquilo deixou Rita preocupada.
	J que ambos precisam partir, importaria-se de levar essa doce mocinha para casa, sr. Morrow?
	No!  bradou Rita, fazendo os dois pularem de susto.
No queria sentar  mesa de ch com Nate, e muito menos aceitar uma carona! Mas no pretendia reagir como uma colegial assustada.
	Se estiver com pressa, pode ir na frente  disse a ele.  Acho que ainda terei de passar algum tempo aqui, limpando esta confuso.
Nate tambm pareceu no haver gostado da ideia de lev-la.
	Mas que tolice!  ralhou a sra. Sadie.  Voc no caminhou at aqui, Rita?
	Bem, sim. Suzzie est de novo na oficina.
	Quando no est?  satirizou a velha.
	Quem  Suzzie?
	Meu carro  disse Rita, em um tom desanimado.
	Se aquilo ficasse nas ruas tempo suficiente para lev-la a algum lugar, at poderia ser classificado como algum tipo de veculo. Mas esse no  o caso. No gostaria que nossa menina voltasse a p para casa, sozinha, a essa hora da noite. No gosto nem de pensar nas coisas horrveis que poderiam acontecer.
	Em Hooperville?
A descrena no tom de voz de Rita foi bvia, trazendo um sorriso aos lbios de Nate.
	As cidades grandes no so os nicos focos de criminalidade do mundo, no ?  argumentou a sra. Sadie.  Quanto  sujeira, eu mesma a limparei. Afinal, o banheiro  meu.
"Assim como o suti", pensou Rita, protestando apenas contra a ideia de aquela velha senhora ter de limpar tudo sozinha. Nate tambm protestou e ambos se entreolharam.
Quando ficaram em silncio, a sra. Sadie voltou a falar:
	J que insistem, vocs dois limparo meu banheiro. Depois, esse belo cavalheiro a levar at sua casa, querida.
	Isso no  mesmo necessrio  disse Rita, assim que se sentou no banco do passageiro da perua de Nate.
	Talvez no seja, mas no pretendo discutir isso com sua amiga ali. Ela pode parecer frgil, mas no quero submeter meu queixo ao cruzado de esquerda dela. Lanando um olhar na direo da casa, viram a sra. Sadie  janela, acenando. Ambos responderam ao aceno e suspiraram.
	Acho que tem razo  concordou Rita, colocando o cinto de segurana enquanto ele fechava a porta.
Sentado-se ao volante, Nate a encarou, antes de fazer uma pergunta direta.
	Para onde vamos?
	D a volta no quarteiro e me deixe na quadra de trs.
Nate ligou o motor e deu a volta no quarteiro, sem parar na quadra indicada.
	Aqui est timo  disse Rita, vendo o quarteiro ficar para trs.
	E me arriscar a deixar que algo acontea com a moa mais prendada de Hooperville? Prometi uma entrega a domiclio e  o que vou fazer.
	No precisa se referir a mim como a um pacote da Federal Express.
Ao acabar de falar, olhou-o de soslaio por duas vezes, observando-o ficar srio. Aproveitou que ele estava concentrado na estrada para examin-lo com mais ateno. Flagrou-o tentando esconder um bocejo. Ento sua postura defensiva se suavizou. Qualquer um que se dispusesse a atender um chamado de emergncia quela hora da noite era merecedor de um pouco de crdito. Ou, no mnimo, um profissional consciencioso.
E bastante calado tambm. A maioria dos homens que se sentava ao balco do restaurando no demorava muito em contar o roteiro de todo seu dia de servio. At Howard costumava preencher qualquer silncio com novidades a respeito da faculdade e de suas pesquisas.
Via de regra, ela rogava para ter alguns momentos de quietude. Mas, naquele momento, estava comeando a ficar pouco  vontade. A distncia entre seus corpos era muito pequena. Precisava dizer algo, com urgncia.
	O que o levou a deixar a cidade grande e vir morar aqui?  fez a primeira pergunta que lhe veio  mente.
	O folheto de viagem prometia paz, quietude e um ritmo lento de vida. Ainda assim, mal acabei de chegar e fui apresentado ao "inquisidor" comit de recepo, em seguida tive a mo queimada com caf quente e o maior surto de canos quebrados que jamais imaginei ser possvel. E tudo isso em menos de vinte e quatro horas. Acho que vou pedir meu dinheiro de volta.
O sorriso dele foi rpido e bem-humorado, mas, acima de tudo, abalador. Rita sentiu seu rosto esquentar. Desviando a vista, voltou-se para a janela, fingindo interesse pela paisagem que ela j conhecia havia vinte e quatro anos. Talvez o silncio fosse menos desconfortvel do que pensara a princpio.
Poucos minutos depois, Nate parou a perua em frente ao endereo indicado. Era uma grande casa de trs andares, em estilo vitoriano. Ela morava no andar logo abaixo do sto,  esquerda. Depois que os filhos de Fred e Lottie se casaram e partiram, eles haviam convertido aquele piso em dois pequenos apartamentos e o sto em um alojamento para estudantes.
Rita murmurou um agradecimento e abriu a porta, mas ficou paralisada ao ver seu tio Fred saindo para a varanda. Mas como ele estava voltado na direo oposta, talvez no a tivesse visto. A ltima coisa de que precisava era de fofoca.
Voltando a fechar o carro, abaixou-se o mximo possvel no assento e disse:
	Continue rodando.
	O que foi? Endereo errado?
	No faa perguntas. Apenas dirija.
	Hum... Est bem.
Nate voltou a engatar a marcha, ligou o pisca-pisca e verificou o retrovisor.
	Pelo amor de Deus!  protestou ela, exasperada.  No est entrando em uma avenida movimentada. Ande logo! No quero que ele me veja com voc.
	Quem? E por que no? Por acaso sou o leproso do vilarejo, ou algo assim?
	Apenas o mais novo tolo da cidade. Por que no dirige de uma vez?
Ele olhou para fora da janela e ento voltou a fit-la.
	Acho melhor que se sente.
	No.
	Tudo bem, mas o modo como est abaixada a pode induzir um homem a chegar a muitas concluses.
	Ora, seu... Pare de dizer tolices! Como pode pensar em algo malicioso a meu respeito?
	No estou falando de mim  disse Nate, voltando os olhos na direo da janela do lado do passageiro.
Ao ouvir algum batendo no vidro, Rita se endireitou no banco e soltou um suspiro desanimado.
	Quem  seu novo amigo, querida?  indagou Fred.
Sem esperar por qualquer iniciativa dela, os dois homens se apresentaram, trocando um aperto de mos atravs da janela recm-aberta. Conforme o brao de Nate estendeu-se a sua frente, roando-lhe os seios, Rita sentiu seus mamilos reagirem de imediato.
	Estavam dando um passeio?  perguntou Fred, assim que voltou a prestar ateno nela.
	Na verdade, eu estava na casa da sra. Sadie quando o sr. Morrow chegou para consertar um... vazamento. Ela insistiu para que ele me trouxesse para casa, preocupada com minha segurana. Fred deu uma risada indignada.
	Mas Hooperville tem um ndice de criminalidade quase nulo.
	Bem  murmurou Rita, voltando-se para Nate e o encarando, como se estivesse pedindo seu testemunho.
Mas, para seu espanto, ouviu-o perguntar:
	Ainda quer dar aquela volta no quarteiro?
Do lado de fora, Fred arqueou as sobrancelhas. Depois de fit-la, olhou para Nate e comeou a rir antes de sair andando em direo a casa e entrar.
	Por que fez isso?  indagou Rita, indignada.
	No consigo ver uma boa argumentao e no me juntar a ela  respondeu ele, curvando os lbios em um sorriso.   que j trabalhei muitos anos como advogado.
"Advogado?", pensou Rita, fitando-o com ar incrdulo. "Quem seria louco a ponto de deixar uma profisso to admirvel para consertar vasos sanitrios?"
Ainda boquiaberta, no conseguiu dizer nada.
	Importa-se de me dizer o motivo pelo qual est se escondendo?  perguntou Nate.
	Esta  uma cidade pequena. Amanh cedo, todos comearo a falar de uma ligao romntica entre ns. Talvez voc pense que me deu apenas uma carona para casa, mas espere para ver o que acontecer.
Nate recostou a cabea no encosto do banco e pressionou as costas das mos contra os olhos, permanecendo assim um longo tempo. Seria mesmo to desagradvel que o ligassem a ela de alguma forma? Por fim, franzindo o cenho, voltou a encar-la.
Rita esperava um comentrio sarcstico, uma declarao de que aquilo era loucura ou qualquer outro indcio de que ele estava ciente da confuso em que estavam metidos. Porm, Nate se limitou a dar de ombros.
	Agiiente-se firme, que isso logo passar.
	Passar para um estgio mais grave, isso sim  avisou ela.  Creio que no tenha entendido. Esse hbito casamenteiro no  apenas um passatempo por aqui. Todos nesta cidade levam muito a srio a misso de encontrar um marido para mim.
	Todos, menos voc mesma, pelo que entendi.
	Exatamente. Quero fazer algo por minha prpria conta. Quando me casar, ser com algum que possa me afastar dessa "vidinha". No tenho a menor inteno de me unir a um joo-ningum de cidade pequena, cujo conceito de grande oportunidade se limita a trabalhar de sol a sol e que acha que uma mulher ps-graduada  algo mais esquisito do que uma vaca com duas cabeas.
	Bem, pode ficar tranquila. Tenho um instinto de autopreservao que me guia a cada passo. No tenho a menor inteno de me casar com ningum, muito menos com voc.
	Obrigada  respondeu Rita, s ento compreendendo o que ouvira.
Por mais que aquela afirmao a deixasse mais segura, ainda assim denotava a ideia de um insulto. De repente, sentiu-se como se houvesse levado uma bofetada.
	Autopreservao, ? Pois bem. Lembre-se apenas de que, nesta cidade, mesmo que voc usasse uma etiqueta de advertncia, informando se tratar de uma espcie perigosa, no faria muita diferena.
	Sem problema  respondeu Nate, com calma.
Como era possvel algum ficar to indiferente diante de uma catstrofe iminente? Era preciso tomar alguma atitude!
	Nesse caso, creio que no se importar se eu fizer alguns comentrios desagradveis a seu respeito, certo? Somente para desanimar os mais insistentes.
	S se o que disser for realmente o que pensa a meu respeito  determinou ele.  Diga o que quiser, desde que seja sincera.
Rita fitou o semblante tranquilo por alguns minutos, em silncio, ento saiu do carro.
Depois que Nate partiu, ela continuou na calada, vendo o carro se afastar. Em sua mente, surgiu uma longa lista de comentrios desfavorveis. Mas seria mesmo capaz de associar algum deles a Nate Morrow?
	Oh, mas que pergunta idiota  murmurou con sigo mesma.
Claro que seria capaz de faz-lo! Por que no?

CAPITULO IV

	E todos tiveram uma pssima noite de sono  murmurou Nate, com o rosto no afundado no travesseiro.
"Todos" se referia aos msculos de seu corpo. Com um gemido, levantou-se da cama e foi para  banheiro. Estava com olheiras e tinha o rosto escurecido pela barba por fazer. Os olhos vermelhos denunciavam as horas no dormidas.
Depois do esforo exaustivo de limpar a loja e de atender  maior sequncia de emergncias de sua vida, a ltima coisa que imaginara era que iria perder o sono por causa de uma garonete. Por que no atendera ao pedido de Rita, deixando-a no quarteiro de trs ao sair da casa da sra. Saddie? E qual fora o pagamento que recebera por no ouvi-la? Fofocas suficientes para transformarem sua vida em um inferno.
Aquilo j estava indo longe demais para algum que a princpio pretendia no se envolver. Desde que se formara, j tivera uma cota de participao mais do que suficiente em vidas alheias. Testemunhara muitas batalhas na corte, onde clientes tentavam consertar suas vidas ou arrasar os ex-cnjuges sem o menor escrpulo. Fazia tempo que resolvera se afastar daquele tipo de loucura. E tambm das caadoras de dote.
Pelo que ouvira da bela Rita Lynn, ela parecia se enquadrar nessa ltima categoria. Pelo visto, precisaria transformar o lema de "no envolvimento" em uma clusula irrevogvel em sua vida. Alm disso, seria melhor evitar se deparar com aquele belo par de olhos azuis, pois seu poder sedutor era muito maior do que ele imaginara a princpio. Teria de ficar fora da mira da "moa mais prendada de Hooperville".
"Nate, pare de exagerar", pensou consigo. "Um pouco de fofoca no poder feri-lo".
Olhando-se no espelho mais uma vez, fez uma careta para seu reflexo abatido. Um timo lembrete do quanto dormira pouco.
Respirando profundamente, concluiu que um bom banho, um barbear caprichado e um desjejum adequado o fariam sentir-se como novo. Mais do que depressa, colocou o tampo na banheira e abriu as duas vlvulas de gua, quente e fria, ao mesmo tempo.
Mas nada aconteceu. Tentou repetir o processo diversas vezes, sem resultado. Deu um murro na borda da banheira, mas tudo o que conseguiu foi uma intensa dor na mo.
 Onde est o encanador quando precisamos dele?
Foi ento at a cozinha, sabendo o que aconteceria antes mesmo de abrir a torneira da pia. Nada de gua ali tambm. Qual era o problema naquela cidade?
"Meu desjejum ficar para depois do primeiro cliente", pensou, descendo para o trreo, pegando a mala de ferramentas e seguindo escada abaixo, at o poro.
Conforme contornou o balco, Rita sentiu que Al a acompanhou com o olhar. Talvez ele houvesse notado seu ar cansado. Tivera sorte por no haver trabalhado no turno do desjejum naquela manh. Ainda assim, comear s onze e meia estava sendo bastante difcil. Quanto mais rpido se envolvesse no servio, melhor.
A noite anterior no lhe proporcionara um sono tranquilo. Passara horas virando-se na cama, tentando afastar os pensamentos incmodos de sua mente. Normalmente, tratava-se de preocupaes a respeito do futuro, do beb e de Howard. Daquela vez, contudo, fora atormentada por algo novo. Na verdade, algum novo.
Nate no a deixara em paz, nem mesmo em seus sonhos. Mesmo sabendo que recebera dele menos ateno do que receberia se fosse uma torneira pingando.
	E ento, como foi a noite passada?  indagou Al, limpando as mos no avental e esperando pela resposta.
	O qu? O jantar com a sra. Sadie?
	No. Ouvi dizer que voc saiu com Nate.
Parando o que comeara a fazer, Rita encarou o chefe, que estava se comportando como se fosse seu irmo mais velho.
	Ele apenas me deu uma carona at em casa, s isso.
	Certo.
	Suzzie estava na oficina.
	E quando no est?  perguntou ele, voltando a mexer na grelha.
Rita voltou a limpar o balco. Todos que estavam sentados nos bancos altos, haviam parado de comer e de beber. Quando a viram levar as mos  cintura, voltaram a agir como antes, continuando o que estavam fazendo.
	Pena que no estava aqui essa manh.
Ao ouvir aquilo, ela se virou para Al mais uma vez.
	Sabe que eu teria vindo para ajud-lo. No acredito que tenha feito cerimnia em me chamar, j que
havia tanto servio assim.
	Quem disse isso? Desde quando no posso lidar com uma multido faminta? Na verdade, estou falando isso porque seu amigo parou aqui para tomar uma xcara de caf. Sentou-se a em frente ao balco e ficou parado, com ar solitrio e um olhar vago.
Encarando-o e optando por no responder, Rita se aproximou da passagem para a cozinha, perguntando:
	Onde est o hambrguer especial da mesa seis?
	Ele tambm estava com olheiras  continuou Al, fazendo um movimento circular com o indicador enquanto apontava para o rosto dela.
	No consegui dormir. Tenho muitas preocupaes em mente hoje em dia, mas o sr. Morrow no faz parte delas.
Al fez uma expresso solene, demonstrando que havia entendido. Ento voltou a cuidar da grelha. Rita suspirou. Para seu alvio, parecia que seu patro havia compreendido que aquele jogo casamenteiro no era oportuno. J bastava ter de manter seu emprego, estudar e ter um beb. Oh, e tentar encontrar Howard.
A escola era um de seus problemas mais iminentes. Nunca conseguiria terminar a faculdade se no eliminasse as matrias nas quais estava pendente. Exceto por literatura e redao, conseguira eliminar todas as outras matrias daquele semestre. Mas como tivera tempo de ler as obras indicadas, a primeira das dependncias logo seria coisa do passado. Redao, por outro lado...
O problema no era falta de criatividade nem desconhecimento de idioma. Muito menos dificuldade em se expressar. O fato era que lhe parecia impossvel formular qualquer frase com menos de dez palavras.
Em termos de redao, era como se algumas pessoas tivessem o hbito de levar a visita para dar uma volta
ao redor da casa ou do celeiro, mostrando o exterior antes de chegar  porta. Rita, porm, sempre ia alguns passos adiante. Fazia um roteiro turstico por toda a cidade, ou pela fazenda, antes de chegar l.
Mas, como o beb s chegaria em fevereiro, haveria tempo mais do que suficiente para apurar seu mtodo de redigir. Depois, bastaria cuidar do beb enquanto terminava o ltimo semestre, sem nenhuma pendncia. No seria impossvel.
E quanto a fazer tudo isso e ainda trabalhar ao mesmo tempo? Uma onda de ansiedade a dominou de repente, abalando sua autoconfiana. Foi preciso colocar sobre o balco a bandeja que estivera segurando.
"Puxa, Howard, por que no respondeu s minhas cartas? Afinal, o filho tambm  seu!", pensou, impaciente.
	E ento, como foi?  indagou Al.
	O qu?  disse Rita, tentando se recompor.
	A noite passada. Seu encontro com o novo encanador da cidade, ora...
Encontro? Seria possvel que ningum naquele lugar jamais lhe daria ouvidos?
	Howard. E Howard  falou ela, repetidamente.
Continuaria a repetir o nome de seu noivo at que todos se lembrassem de que j estava comprometida com algum. Ao ver seu patro dar de ombros com indiferena e prosseguir com o trabalho, sentiu vontade de gritar. No mesmo instante, algum que estava sentado ao balco perguntou:
	E ento? O sr. Morrow  gentil?   
	No sei e no me interessa!  gritou Rita, repetindo a negao em voz alta por alguns segundos.
Parando apenas quando o flego acabou, respirou profundamente e se sentiu bem mais aliviada. Ao olhar ao redor, notou que todos a fitavam com olhos arregalados, segurando as xcaras suspensas no ar.
Sorrindo, respirou fundo mais uma vez, s que com satisfao. Sim, estava se sentindo muito melhor.
 O hambrguer est queimando  avisou ao boquiaberto Al, conforme seguia para a mesa seis para servir os refrigerantes.
s dez e meia, naquela noite, Rita colocou seu ruidoso veculo na rua. Porm, o motor parou de repente e foi preciso se segurar para no colidir contra o volante. At mesmo o cinto de segurana se quebrara dessa vez. Pelo barulho estranho que ouvira quando ocorrera a sbita parada, sabia que Suzzie iria voltar para a oficina bem antes do habitual. Pegara o carro naquela mesma manh. Menos de doze horas. De fato, a marca estava ficando cada vez menor.
Embora estivesse com vontade de chorar, sentia-se cansada demais para tanto. O dia movimentado no restaurante, mais as aulas noturnas, haviam deixado seu corpo exaurido. Pegando sua mochila, pendurou-a no ombro e saiu do veculo. Nem precisaria se dar ao trabalho de tranc-lo. Bastaria fechar a porta, j que quase no havia roubos de carro na cidade. Suzzie, em particular, no seria roubada nem mesmo em Nova York.
O jeito era caminhar. O material lhe pareceu mais pesado do que de costume, talvez graas ao F que recebera pela ltima redao. Precisaria fazer algo melhor na semana seguinte, ou iria ficar presa na matria por mais um semestre. Se no eliminasse aquela matria, no poderia prosseguir com seu curso de comunicao.
Ao chegar em casa, subiu lentamente a escada para o segundo andar e entrou, ansiosa por um banho. Deixaria para estudar depois. Na situao em que se encontrava, no poderia distinguir um sujeito de um predicado. Aps colocar seu material sobre a mesa e abrir os livros, para lembr-la de no ir direto para a cama depois do chuveiro, foi se despir no quarto. Ao abrir o chuveiro, esperou em vo pela sada da gua. Nada. Estreitando o olhar, abriu e fechou o registro vrias vezes, sem resultado.
	No. No vou chamar aquele encanador. Isso no!
Contudo, assim que acabou de falar comeou a rir de maneira quase histrica. Haveria outra pessoa que pudesse resolver aquele problema? Claro que sim! Afinal, a pea parecia apenas um pouco solta. Lembrava-se de ter visto um martelo em algum lugar na cozinha.
No conseguindo encontr-lo, lanou mo de uma grande e antiga concha de sopa que ganhara da sra. Sadie, e que parecia pesada o suficiente para o trabalho.
Com um golpe certeiro, fez o que pretendia. Entretanto, a manopla caiu no boxe de banho, seguida por uma srie de peas da vlvula de fluxo. Um jato de gua comeou a esguichar para todos os lados, encharcando-a.
	Maldio!
	Isso dever aguentar  disse Nate, dando o aperto final ao conjunto substitudo.  O que h de errado com a populao de Hooperville? Ningum lhes disse que canos e martelos no combinam?
Rita arqueou uma sobrancelha. No adiantaria nada explicar que usara uma concha de sopa, e no um martelo. Isso s serviria para inspir-lo ainda mais no sermo.
	Quanto lhe devo?
	 Apenas a mo-de-obra. O novo registro que instalei fica como brinde.
Ele preencheu a nota de servio e a entregou.
	Quarenta a cinco dlares?  leu ela, em voz alta, chocada.
	Bem, se houver algum problema para pagar, tenho certeza de que poderemos chegar  alguma forma de acerto.
O tom de voz de Nate era de quem lamentava muito, mas suas palavras passavam outra mensagem.
	Disso eu tenho certeza  ironizou Rita.  Mas no  assim que resolvo meus problemas.
	Ei, no foi isso que eu quis dizer. Se estiver em dificuldades financeiras, pode me pagar daqui a algum tempo. Vamos chamar isso de plano de pagamento estendido.
Sem lhe dar ateno, ela pegou o talo de cheques e comeou a preench-lo.
	No deposite isso at a prxima sexta-feira, sim?
	Se precisar, posso esperar mais tempo.
"No, obrigada", pensou ela. J' bastava que as pessoas da cidade a houvessem adotado como filha ou irmzinha. No precisava de mais algum tentando ajud-la todo o tempo. Soltando um suspiro, observou um borro se formar no papel logo atrs de seu traado.
	No acredito! A caneta escorreu, e era a ltima folha do talo... Oh, mas tenho outro guardado em algum lugar. Espere um instante, sim?
	Claro.
Parando  porta do quarto, Rita olhou de soslaio para trs e viu Nate examinando seus livros sobre a mesa da cozinha.
	Redao avanada?  indagou ele.
	Sim, mas a minha parece bem bsica. Nem sei como passei pela intermediria. Estou dois semestres atrasada, fazendo apenas aulas noturnas. Mas quando me formar, pretendo ir para longe daqui.
	Exceto pelo pssimo sistema de encanamento da cidade, no imagino a razo de estar to ansiosa para partir.
	Quando eu era pequena, meus pais decidiram partir para Fort Wayne, em busca das oportunidades da cidade grande. Eles fizeram as malas, colocaram tudo no carro e ns partimos. Mas s chegamos at o trevo de acesso da estrada, onde um caminho nos acertou. Sempre imaginei como teria sido a vida se houvssemos chegado l.
O modo como Nate a olhava era penetrante, fazen-do-a sentir-se nua. Por que contara a ele a histria de sua famlia? Bem, isso no fazia muita diferena. Em uma cidade to pequena, cedo ou tarde a informao chegaria at ele.
	Vou fazer seu cheque  murmurou ela, fechando-se no quarto.
Minutos depois, estava de volta  sala, dizendo:
	Aqui est o pagamento. Quarenta e cinco dlares pelo servio de encanamento. Como no sei o nome de sua loja, fiz o cheque em seu nome, est bem?
Ao acabar de falar, parou de conferir o preenchimento e olhou para a sala. A viso que teve a fez hesitar e ficar em silncio. Nate estava reclinado no sof, com as pernas esticadas e a cabea apoiada no encosto, os dedos entrelaados sobre o abdome e a boca entreaberta. Sobre o peito msculo, e apoiado em seus polegares, encontra-va-se aberto seu caderno de redao.
	Ei  chamou Rita, de longe, sem arriscar se aproximar.  Seu cheque est pronto.
Nenhuma resposta. Nate Morrow estava na terra dos sonhos. Aproximando-se, observou-o com ateno. Seu rosto parecia suavizado, e era possvel detectar at mesmo um sorriso brando em sua expresso. Ele estava tendo um sonho. Mas com o que um advogado que virara encanador deveria sonhar? Talvez ela jamais soubesse a resposta.
 Ei!  chamou-o em tom mais alto, observando o sorriso dele ceder lugar a uma careta.  Saia do meu sof. Tenho certeza de que h uma cama a sua espera em algum lugar.
Mesmo diante do protesto, tudo o que Nate fez foi virar-se de lado e se acomodar melhor. Com o movimento, o caderno caiu no cho, aberto na pgina que le estivera lendo.
Decidida a acord-lo, Rita cutucou-o de leve com a ponta dos dedos. Nada. Na verdade, s conseguiu faz-lo voltar a sorrir. Concluiu que deveria ser mais enrgica e, quando segurou os ombros dele para sacudi-lo, teve uma surpresa.
Rpido como um felino, mas sem se dar ao trabalho de acordar, Nate ergueu um dos "braos para se defender e afastar o incmodo. Aquilo a fez se afastar. Sem ao, Rita o viu se ajeitar ainda mais no estofado, esboando um sorriso tranquilo e sereno.
No adiantaria continuar tentando. Seria mais produtivo cobri-lo e torcer para que ele no roncasse. Nem fosse sonmbulo. Por via das dvidas, iria trancar a porta do quarto. Abaixando-se, pegou o caderno aberto para identificar o que o havia entretido at o sono domin-lo.
O que ganhou sua ateno, a princpio, foram as marcas de correo, feitas em vermelho berrante, por seu professor. Naquele momento, percebeu que o azul de sua caneta quase desaparecera em meio ao espetculo escarlate. Observaes como: "muito prolixo", "atenha-se ao assunto", "cuidado com as metforas" e "resuma", entre outras, dominavam a pgina. Ao alto, um F vermelho resumia toda a situao.
Ela fez uma careta. Aquela altura, Nate deveria estar considerando-a uma ignorante. Estava prestes a se convencer de que no se importava com aquilo quando leu o ttulo de seu texto: "A caada ao marido na faculdade moderna".
 Otimo!  disse, cerrando um dos punhos e fechando o caderno com a outra mo, antes de ir para seu quarto com passos firmes.  Maravilhoso!

CAPTULO V

Nate estava inconformado. Como pudera ter feito aquilo? De todos os sofs de Hooperville, por que tivera de pegar no sono justo no de Rita? Mas, pensando bem, depois do ritmo alucinado do dia anterior, tivera sorte por no haver dormido de p em algum lugar.
Mas era tarde para corrigir o erro. Iria pedir desculpas a Rita, quando a visse, mas teria de esperar para faz-lo. No pretendia aparecer no restaurante de Al por um longo tempo.
No pde deixar de se perguntar se ela havia tentado acord-lo e, se sim, com que empenho. Afinal, ele acordara coberto com um lenol. De sbito, um pensamento lhe ocorreu: talvez todos na cidade fizessem parte de um plano. E Rita poderia fazer parte do grupo.
"Tolice", concluiu no mesmo instante, rindo de si mesmo. Era pouco provvel que todos na cidade houvessem destrudo os prprios encanamentos apenas para faz-lo dormir feito um urso hibernante no sof de Rita. Se continuasse se deixando levar pela imaginao, comearia a ver duendes saindo dos canos e jacars nos esgotos.
Deveria ser esse o efeito de haver passado tantos anos em meios s conspiraes da cidade grande. Estava feliz por haver sado daquele antro de loucuras que era Cincinnati.
Apoiando-se no balco da loja, ligou o computador. No demorou para que aparecesse sua agenda de servios na tela. Ao longo do dia anterior, quando estivera ali,  procura de peas, recebera ainda alguns chamados e conseguira agendar cinco compromissos. Comearia instalando um chuveiro, s oito horas da manh. Olhando para o relgio, verificou que ainda eram sete e quinze.
Ao ouvir o apito da cafeteira, no canto oposto da loja, foi se servir de uma xcara de caf. Mal havia levado a bebida aos lbios, quando escutou a porta da frente se abrir e viu cinco homens entrarem, liderados por Norm, o barbeiro. Quando eles se espalharam, foi impossvel no se lembrar de uma cena de filme de faroeste. Com certeza, no estavam ali para falar de encanamentos.
Nate encarou cada um deles, mas todos desviaram o olhar, ou para o cho, ou na direo de Norm. Continuando a beber o caf, ficou quieto, respeitando o silncio que todos pareciam ter a inteno de sustentar.
Poderia esperar at que decidissem dar a m notcia ou fazer a reclamao que os levara a procur-lo, mas ele no conseguia imaginar do que poderia se tratar. O som do barbeiro pigarreando pareceu to intenso quanto o rudo do martelo de um juiz.
"Est aberta a sesso", pensou Nate, terminando o caf.
 Voc foi visto  comeou Norm.
Seus acompanhantes emitiram sons e balanaram as cabeas em concordncia. No compreendendo do que se tratava, Nate apenas arqueou as sobrancelhas, gesticulando para que o homem prosseguisse.
	Sim, foi visto hoje cedo...
	Muito cedo mesmo  acrescentou um dos presentes.  ...saindo da casa de Fred  concluiu Norm. 
Mas ele disse que voc no esteve l a chamado dele, nem fez consertos na ala principal. Ento conclumos que deveria ser Rita com algum problema.
	Por acaso perguntaram a ela?
	Achamos melhor falar com voc primeiro, considerando a natureza delicada da situao.
	Delicada  repetiu Nate, tentando se certificar de que estava entendendo tudo da maneira correta.
Os cinco homens balanaram as cabeas afirmativamente mais uma vez, cada um em seu ritmo. "Delicada", pensou Nate. O fato de no estar vendo uma corda e um carrasco no significava que fosse tolo o suficiente para classificar sua situao como "delicada".
De que o estavam acusando? De abusar da virgem da cidade? De seduzir "a garota mais prendada de Hooperville"?
	E ento? Ela teve algum problema com o encanamento, um vazamento, ou algo parecido?
	Deve ter sido uma enchente, pois demorou a noite inteira para resolver  falou um dos interrogadores.
Seria fcil contar o que acontecera. A voz de Nina pareceu murmurar algo dentro de sua cabea, implorando para que ele falasse da maneira mais clara possvel. Contudo, algo o levou a agir de outra maneira, indo contra todo seu bom senso.
	Sabe como   comeou , o relacionamento entre um encanador e seu cliente  estritamente confidencial, parecido com o de um paciente e um mdico, ou o de um padre e o pecador.
Mesmo sabendo que aquela ltima comparao fora um exagero, ele no pde se conter. Apesar de receber olhares confusos, foi ainda mais longe.
	A tica profissional me impede de discutir o encanamento alheio. Desculpem-me, senhores. Se quiserem saber algo mais sobre os canos daquela casa, precisaro perguntar  prpria Rita, por mais delicada que possa ser a situao.
Os visitantes se entreolharam.
	No nos interessa saber a respeito do encanamento. O que queremos  conhecer suas intenes, agora que esto fazendo companhia um ao outro, a ponto de passar a noite juntos.
	Essa  uma cidade pequena  prosseguiu outro deles.  Protegemos uns aos outros, e principalmente nossas jovens. Voc parece ser um homem decente. Sabe do que estamos falando.
Soltando um suspiro, Nate concluiu que talvez fosse hora de colocar a conversa no devido rumo.
	A noite passada...
	No, no  interrompeu Norm, levantando as mos em um gesto defensivo.  No viemos aqui para saber os detalhes. Vocs dois so adultos. O fato  que seguimos certas regras de conduta em Hooperville, o que no deve ser comum em uma cidade grande como a sua. S queramos inform-lo sobre o que  esperado de voc.	
	E  algo simples e direto  continuou o nico que nada havia dito at ento.  Esperamos que faa a coisa certa.
	Principalmente agora que j pde conhec-la melhor, se  que me entende.
Um coro de "sim, isso" se fez ouvir.
	Acompanharemos cada passo seu. No queremos que fique "embromando" para tornar sua inteno oficial.
Nate observou o comit sair da loja e seguir direto para o restaurante de Al. Ainda no recuperara seu ritmo normal de respirao. Deus, para onde se mudara? Pretendia morar em uma. cidade pequena, no no velho oeste!
Contudo, aquele quadro parecia bem prximo ao que fora descrito por sua falecida esposa. O problema fora no t-la levado a srio na poca. "Mas voc no vai partir", sussurrou a voz dela, em sua mente.
No, no partiria. Seria preciso mais do que "o barbeiro e seus capangas" para coloc-lo para correr.
Vocs fizeram o qu?  perguntou Rita, ciente de que estava gritando.
Entretanto, talvez precisasse de um megafone. Quo alto precisaria falar para que todos a ouvissem e desistissem de tentar ajud-la daquela maneira?
	Eu no fiz nada  defendeu-se Al.  Alguns dos rapazes agiram por conta prpria.
	Agiram como idiotas! Que. direito eles tm de fazer algo assim?
	Ora, vamos, Rita. Sabe bem que s estavam pensando em seu bem-estar.
	Acho que quer dizer que no estavam pensando, isso sim. Se estivessem, teriam concludo que Nate pode acabar pensando que fui a responsvel por essa visita. Preciso sair daqui.
J era um problema que Nate houvesse dormido em seu sof. Mas ver toda a cidade correndo atrs dele com espingardas mais parecia um pesadelo de filmes antigos.
	Ainda faltam horas para o final do seu turno  lembrou Al.  Est passado mal outra vez?
	No daqui  explicou ela, apontando para o cho.  Mas desta cidade. Preciso partir. E em breve...
	Ora, Rita, no exagere.
	...antes que meus preocupados vizinhos me enlouqueam.
	Eles s falaram de intenes e essas coisas. Aquilo foi suficiente para faz-la estreitar os olhos.
	E do que mais?
	Bem, voc conhece Norm, no ?
	Oh, muito em breve mesmo, antes que eu mate um de meus preocupados vizinhos.
"Ou que um encanador enfurecido acabe comigo", concluiu em pensamento.
Pelo que conhecia de seu tio Norm, ele j devia estar organizando um boicote geral  loja de Nate. No lhe dariam nem mesmo a chance de saber o que o atingira. De sbito, ele descobriria apenas que estava tendo muito tempo para descansar. Na verdade, todo o tempo disponvel.
Do ponto de vista de Nate, no seria exagero pensar que ela arquitetara tudo aquilo. Como poderia ser diferente? Talvez nenhum argumento o convencesse do contrrio. Mas seria preciso tentar fazer algo. No suportaria a responsabilidade pela falncia de Nate em sua conscincia.
	Sabe, voc ainda no explicou o motivo de ele haver demorado at de manh para consertar o vazamento  questionou Al.
	E no demorou. Acontece que ele...
"Adormeceu no meu sof", Rita completou em pensamento, sabendo que, se falasse isso, adicionaria mais fermento ao problema. Morando em Hooperville, deveria estar cursando psicologia, em vez de comunicao. Pelo menos teria um vasto campo de experincia com seus amigos.
Mas, bem-intencionados ou no, eles precisavam parar de interferir em sua vida. E isso inclua Al, que deixara a comida queimar ha chapa, at ficar parecendo uma poro de pedaos irreconhecveis de carvo.
	Preocupados ou no, j  hora de pararem de me vigiar. Vivem to preocupados em me salvar de mim mesma que esto me afogando em um mar de boas intenes. Cuidem de suas prprias vidas, est bem?
Al, por exemplo, pode comear jogando fora os ovos e o fil que esto na chapa. Eles, sim, esto alm de qualquer salvamento.
Rita no sabia dizer ao certo quantas vezes passara em frente  loja de Nate, mas j estava cansada de ir e vir por aquele lado da rua. A cada vez que o fazia, levantava a cabea e evitava olhar para dentro, enquanto repetia para si mesma que deveria entrar e falar com ele.
Estava com uma soluo em mente, mas no sabia se esta seria aceita. Bem, se no fosse, pelo menos a falncia dele no seria mais problema seu.
	Nesse caso, a culpa ser dele mesmo  falou consigo mesma, aps passar mais uma vez pela porta, sem ter coragem de entrar.
	Por que chegou a essa concluso?
Embora a voz dele houvesse soado atrs dela, pareceu capaz de envolv-la por completo. Ao se virar para encar-lo, viu-o apoiado no portal. A camiseta branca contrastava com sua pele bronzeada, e os msculos que a preenchiam pareciam rijos como ao. Por que os ombros dele tinham de ser to largos e fortes?
Sentindo um arrepio desconcertante, Rita gaguejou:
	Eu, b-bem...
Os lbios dele esboaram um sorriso. O sol brilhava sobre seus cabelos castanhos, fazendo reluzir um ou outro fio prateado nas laterais da cabea. Sem perceber, Rita o estava fitando como se estivesse hipnotizada. Por um instante, no conseguiu se lembrar do motivo de estar ali.
	Voc parece ter algo delicado em mente  sugeriu Nate.
	Delicado?
Os olhos castanhos pareceram capazes de captar sua ateno para sempre. Deus, como ela poderia pensar, sentindo-se vulnervel daquela maneira? Por que estava se sentindo assim? Deveria ter ficado tempo demais andando sob o sol.
	Acho melhor entrar  sugeriu Nate, levando a mo s costas dela para conduzi-la para dentro.  Se continuar a fora, andando de um lado para outro, precisarei trocar a calada.
	Vou direto aoassunto  disse Rita, depois de recusar a oferta de caf, temendo perder a concentrao.
Afinal, ficara muito tempo sob o sol.
	Claro.
	Caso tenha pensado que a visita de tio Norm foi uma piada, vim avis-lo de que ele e os amigos no estavam brincando.
	At que ponto eles foram srios?
	J ouviu falar em "dar gelo"?
	Sim, a brincadeira do "gelo". Acho que posso conviver com isso por algum tempo. Se bem que ignorar uma pessoa requer um grande esforo, e no creio que aqueles cinco iro querer se desgastar tanto por minha causa.
	Aposto que no se importaria se eles jamais lhe dirigissem a palavra outra vez, mas estou falando de outra coisa: silncio total. Seu telefone no vai mais tocar, pois ningum mais, em toda a cidade, precisar de um encanador.
	Oh, um boicote. Isso, sim,  algo mais perigoso, ainda mais se eles vierem para minha porta com placas feitas  mo. Porm, mesmo os piquetes mais resistentes caem sozinhos depois de alguns dias, pois isso requer muita energia e dedicao.
	Essas pessoas no so do tipo que desistem e partem por falta de empenho  advertiu Rita, percebendo que estava atenta demais aos movimentos dos lbios dele.
	Ento veio at aqui apenas para me dar ms notcias? Por acaso no trouxe nenhuma sugesto no bolso de seu avental?
Fazendo uma pausa antes de responder, Rita tentou se concentrar. Se falasse depressa demais, pareceria ansiosa e o levaria a questionar suas intenes.
	Vamos lhes dar o que eles querem. S ns saberemos que no ser de verdade. Se vier a minha casa todas as noites...  Ela no suportaria isso, ento se corrigiu:  Bem, noite sim, noite no, todos ficaro convencidos.
Nate balanou a cabea negativamente.
	No gosto de farsas. J no lhe disse isso antes?
Rita suspirou. Como poderia salv-lo, se nem ele mesmo estava ciente do perigo? Precisaria utilizar outra ttica.
	Isso no afeta apenas voc. Est pensando que vim at aqui apenas para ajud-lo? Saiba que minha vida ficou alterada. Enquanto estiver olhando para seu silencioso telefone, sabe com o que estarei sofrendo?
	Com uma crise de conscincia?
Aquela resposta a pegou desprevenida. Pelo visto, estava mesmo lidando com um ex-advogado.
	Est maluco se pensa que tenho algo a ver com a visita que recebeu. Tenho quatro redaes avanadas para desenvolver durante o ms que vem. Logo os exames finais vo chegar. A ltima coisa de que preciso  de um relacionamento, quer seja com voc ou com qualquer outra pessoa!
	Oh.
	Infelizmente, todos na cidade vm minha vida por outro ngulo. Continuaro a arranjar solteires, um atrs do outro, como se eu estivesse desesperada por um casamento.
Pela expresso de Nate, ficou claro que aquilo no o convencera.
	No acredito que seja a nica moa solteira de toda a cidade.
	Sou a nica na minha situao. Estamos em Hooperville, e meus amigos no acham que posso continuar sozinha daqui para a frente. Esto todos preocupados.
Ao v-lo balanar a cabea negativamente, comeou a ficar impaciente.
	Acredite-me  prosseguiu Rita , eles no vo desistir. Se aceitar minha sugesto, estar me ajudando tambm. Terei um pouco de flego e poderei me concentrar nos estudos sem me preocupar que eles acabem largando um solteiro perdido  soleira da minha porta.
Pressionando a base do nariz entre o indicador e o polegar enquanto fechava os olhos por um momento, Nate falou:
	No faz nem uma semana que a conheo e j est me propondo algo assim? No me parece a postura de algum que est evitando relacionamentos.
	Mas no estou evitando... Bem, no momento, sim. Mas apenas os que eles esto tentando arranjar para mim. E antes que comece a distorcer as coisas,  bom que fique claro que no estou propondo um namoro nem algo do gnero. S estou tentando abrandar os problemas que voc me causou. Sabe, dormir no meu sof no ajudou a facilitar o rumo da minha vida, se  que me entende.
Ao v-lo ali, parado, fitando-a de maneira direta, Rita teve a impresso de que receberia uma recusa. O problema seria apenas dele, j que sua parte estava mais do que feita. Contudo, no podia explicar a absurda vontade que estava sentindo de que Nate aceitasse sua sugesto e participasse do plano.
	Quanto tempo esse plano precisar durar?
Quando ouviu aquilo, ela soltou o flego. No percebera que deixara de respirar por alguns segundos.
	Duas semanas, no mximo.
	Seu recorde de durao de namoro?
Ouvir aquilo a ajudou a se concentrar outra vez.
	Oua, tudo o que quero  uma pausa nessa neurose de tentarem me casar com algum. Voc precisa que o telefone continue a tocar com novos chamados, no ? Do contrrio, ser a infeliz testemunha de seu prprio naufrgio.
Ele sorriu com ar descrente, cruzando os braos.
Rita j estava contendo a tenso havia muito tempo. De repente, pareceu haver chegado ao limite. Uma contrao em seu estmago a alertou para que resolvesse logo a situao. Para seu organismo, parecia nunca ser tarde demais para um enjoo matinal, mesmo que ela houvesse acordado trs ou quatro horas antes. Aps respirar profundamente, insistiu:
	Tudo o que precisa fazer  demonstrar suas boas intenes durante um tempo suficiente para satisfazer os nativos. Depois de duas semanas, anunciarei que houve o rompimento do namoro.
	S um alienado acreditaria nisso.
	Oh, mas os cidados de Hooperville acreditaro. Principalmente depois que eu lembr-los de que nunca me casaria com um joo-ningum.
	Ei...
	Oh, sem ofensa, por favor. No  nada pessoal.
Devagar, um sorriso se formou em nos lbios dele.
Olhou-a de alto a baixo e desviou a vista para o teto.
Por algum motivo, o fato de ele estar dando mais ateno ao teto do que a sua aparncia deixou Rita frustrada. Seria algum efeito da tenso? Talvez do enjoo? De qualquer maneira, estava tendo reaes que no deveria ter.
De repente, porm, sentiu-se grata por no estar sob o olhar atento de Nate. Um n se formou em sua garganta e o desjejum daquela manh comeou a querer se rebelar em seu estmago. Lgrimas comearam a embaar sua vista e foi preciso levar a mo  boca.
	Certo  falou ele, por fim.  Duas semanas.
Mas, de agora em diante, vou me certificar de dormir na minha prpria cama.
Rita conseguiu respirar fundo e controlar a ansiedade a tempo de se recompor. Em outra ocasio, tentaria descobrir por que tivera aquela reao to intensa.
	No se preocupe, Nate. Daqui a duas semanas, quando tudo isso acabar,  provvel que se torne o novo heri da cidade.
Sem esperar por uma resposta, saiu dali o mais depressa que pde.
Duas semanas.
Se cinco minutos na frente dele haviam sido mais do que suficientes para deix-la naquele estado, talvez houvesse acabado de trocar o purgatrio pelo inferno.

CAPTULO VI

O que eu estou fazendo aqui?  perguntou-se Nate, parado  porta do apartamento de Rita, em dvida a respeito de tocar a campainha pela sexta vez.
Era bvio que no havia ningum em casa.
Seria melhor ir embora. Fora ela mesma quem marcara aquele encontro, e tivera a coragem de no comparecer. Se aquela era a postura que ela acreditava ser adequada para subir no meio social, estava muito enganada. Primeiro precisaria aprender a cumprir horrios importantes.
Foi ento que se lembrou de que, para ela, ele se enquadrava na categoria dos "joo-ningum". Quando a conhecera, jamais imaginara que se tratasse de uma caadora de dotes. Notara uma aura diferente, especial, que no vira antes em ningum da cidade.
Por mais que fosse estranho, parecia haver se enganado. Ento por que seu instinto no concordava com aquela opinio e continuava a insistir que Rita era confivel? Por que estava se incomodando com isso, afinal? No havia motivo para tanto, j que no estava procurando nenhum relacionamento.
Eram trs e quinze da tarde. Esperaria mais cinco minutos e sairia dali. Soltando um bocejo, encostou-se na parede ao lado da porta e deixou as pernas se flexionarem at ir parar no cho. Dali a pouco, voltaria para a loja. Se no houvesse nenhum chamado de emergncia, iria at dormir um pouco. Em sua prpria cama, claro.
A imagem do rosto de Nina parecia flutuar de forma etrea diante dele, como acontecia todas as noites, quando ele estava quase dormindo. Sentia muita falta dela. Juntos, eram perfeitos. Lembrou-se da descrio que ela lhe fizera da vida em uma cidade pequena. A parte do ar puro, do espao aberto e da segurana estava corre ta, mas quanto  vida calma e pacata, j era outra histria.
Talvez houvesse sido uma atitude intencional. Era provvel que ela o tivesse inspirado a ir morar em um lugar assim para que fosse impossvel ficar isolado depois de perd-la. Pois estava fazendo o que sua falecida esposa tanto lhe recomendara quando estavam juntos, que era se envolver com as pessoas. Mas o faria apenas daquela vez e s por duas semanas.
De repente, no fundo de sua mente, aquela voz conhecida e carinhosa pareceu falar com ele outra vez. "Claro. Veremos."
Rita olhou para o relgio de parede e viu que eram trs e cinco da tarde. Nate deveria estar esperando a sua porta havia cinco minutos e os clientes que haviam acabado de comer no estavam fazendo a menor meno de sair dali.
Mais quinze minutos. A essa altura, ele j devia ter ido embora. Pelo menos foi o que pensou, quando levou at a mesa o embrulho do pedido para viagem que aquela mesma famlia havia feito pouco antes.
Outros vinte minutos se passaram, mas Rita j estava andando em ritmo acelerado pela rua onde morava, diminuindo o passo quando se aproximou de casa. No queria parecer ansiosa, para no deixar seu tio Fred muito agitado. Era bvio que o velho estaria espiando pela janela.
De repente, voltou a andar depressa. Claro que Nate no estaria mais l, j que ela se atrasara quarenta minutos. E mesmo que estivesse, qual o problema de ele v-la com pressa? Quem no gostava de chegar logo em casa, depois do trabalho?
Ao chegar mais perto, verificou que seu tio no estava na varanda. Nem seu convidado. De repente, sen-tiu-se exausta. O desnimo a dominou por completo, induzido pela sensao de decepo. Sabia que ele no iria esperar, mas ficou triste ao descobrir que estava certa. Claro que o nico motivo de sua reao era o fato de aquilo poder significar uma quebra de trato. O que mais poderia ser?
Ao subir os degraus e chegar a seu piso, ficou boquiaberta. Nate estava dormindo sentado em seu capacho!
	Nate  chamou ela, lembrando-se da reao dele ao ser tocado e ficando distante.  Acorde.
No poderia falar muito alto, ou chamaria a ateno dos proprietrios e dos vizinhos.
	Vamos, acorde!
No obteve resultado. Talvez um balde de gua funcionasse melhor com encanadores, mas o susto poderia faz-lo gritar. Com cuidado, abriu a porta e passou por cima dele com certa dificuldade. Planejava arrast-lo para dentro, puxando-o pelo brao ou pela perna.
Ento parou um instante, tentando decidir como iria pux-lo. No se lembrava de ele ter parecido to grande antes. Jamais conseguiria mov-lo dali! Nem mesnvo puxando-o pelas pernas.
Nate estava usando uma cala jeans desbotada e justa. O contorno dos msculos apareciam sob o tecido, que se moldava com perfeio sobre o corpo msculo, como se fosse uma segunda pele. No a espantaria se aquela pea continuasse com o molde dele, mesmo quando estava vazia.
Assim que pensou nisso, formou-se em sua mente a imagem daquela cala parada, de p, sem nada dentro, ao lado dele, completamente nu. Em meio a um sorriso, sentiu uma deliciosa onda de calor se espalhar por seu corpo. O sintoma passou logo, mas a advertncia fora clara: estava esquecendo o propsito daquela inspeo.
Sem se dar tempo para pensar, segurou o tornozelo dele e o puxou, conseguindo apenas endireitar-lhe a perna, mas deixando-o no mesmo lugar. Porm, Nate voltou a se encolher, ajeitando o brao sobre o joelho que ele voltara a dobrar. Ento inclinou a cabea para a frente, encostando o rosto sobre o brao.
	Hum, Nina...  murmurou ele, com um suspiro.
Rita notou o sorriso no rosto dele. Nina? Com certeza, tratava-se de algum caso que ele deixara para trs, em Cincinnati. Inclinando-se para perto do ouvido dele, murmurou, com suavidade:
	Nate, sou eu, Nina. Acorde, querido.
Ele se endireitou de imediato. Sua expresso se tornou ansiosa conforme seus olhos se abriram e comearam a se focar nela. Ento, contendo o flego, Nate fitou seu rosto. O que ela estava vendo ali? Desespero? Esperana? O que quer que fosse, desapareceu em um piscar de olhos.
	E voc...
A voz dele soou triste e desapontada. Mas o problema era descobrir o motivo de aquilo t-la magoado de maneira to profunda.
	Seria possvel encontrar algum outro lugar para dormir?  indagou Rita, disfarando suas emoes com um dar de ombros.  Um banco de jardim, talvez.
	Oh, obrigada, Nate  ironizou ele, esticando as pernas e ficando de p.  Vejo que ficou me esperando...  Olhou para o relgio.  Mesmo depois de quarenta minutos de atraso.
Lembrando-se de que aquilo era verdade, Rita suspirou, antes de responder:
	Desculpe-me. Venha, entre. Sinta-se em casa. Vou me trocar e comear a estudar. Tenho muito o que fazer hoje.
	E quanto ao jantar?
	O que est pensando que  isso? Um encontro?
	Bem, deduzi que iria pelo menos se alimentar.
	Passo o dia todo servindo os desastres que Al prepara. Quando chego em casa, a ltima coisa em que penso  comida.
	Agora entendo porque a vejo com olheiras de vez em quando. No se cuida direito.
	No comece com isso voc tambm. Estou muito bem, obrigada. Nunca deixo de tomar minhas vitaminas.
Rita poderia jurar que o olhar que recebeu dele pareceu mais de apreciao do que de crtica. Na verdade, chegou a sentir-se como se fosse um doce diante de algum faminto.
	O que espera que eu faa ao longo de toda a tarde?  indagou Nate.
	Ocupe-se com o que achar melhor. Brinque com o encanamento, assista  televiso, qualquer coisa. S no durma, por favor.
	Mas estou faminto. V cuidar de suas coisas, ento, que eu vou preparar algo para comer. H comida na geladeira?
	Claro, mas v com calma. O que est l precisa durar at a prxima semana  informou Rita, j a caminho do quarto, onde entrou e fechou a porta.
Uma vez sozinho, Nate pde dar uma boa olhada ao redor. Da outra vez em que estivera ali, no pudera faz-lo. S descobrira que o sof era confortvel.
Lembrou-se do ocorrido e se sentiu como um alvo em uma galeria de tiro. No importava o que seu instinto dissesse, porque seu lado racional de ex-advogado continuava a desconfiar de tudo e de todos. Aquilo tudo ainda lhe parecia uma armadilha. S lhe restava descobrir se Rita fazia ou no parte daquele estranho esquema que os cidados de Hooperville pareciam estar armando para junt-los.
O rudo em seu estmago o fez se preocupar com algo mais local. No tivera tempo de almoar e j eram quatro horas da tarde. Antes de ir para a cozinha, porm, notou a manchete no jornal que estava no canto do sof, citando a fuso de duas grandes empresas. S ento percebeu que se tratava de um peridico especializado na rea comercial.
Curioso, olhou as revistas e os outros jornais. Encontrou edies srias como a National Geographic e a Science Today, alm do austero New Yorker, mas nenhuma revista especializada em assuntos femininos. Ora, ora. Aquilo estava comeando a ficar interessante. Mais um abalo em seus conceitos prvios.
Ao chegar  cozinha, admirou-se com a limpeza e com a ausncia de loua por lavar. "Claro, se ela no come...", pensou, sorrindo com sarcasmo. Ao abrir a geladeira, a ideia se confirmou. Havia apenas meio pacote de leite desnatado, cinco ovos, um pouco de queijo prato fatiado, algumas mas e margarina. Aquilo deveria durar at a semana seguinte? At uma formiga passaria fome naquela geladeira! Antes do prximo encontro, iria tratar de fazer algumas compras para ela.
Entretanto, seu instinto o alertou para no se envolver. Por outro lado, no fazia sentido ter de passar fome para participar daquela farsa idiota. Enquanto procurava por utenslios e panelas, concluiu que Rita era do grupo de pessoas que quase no se alimentava em casa.
Com um pouco de esforo, conseguiu preparar algo substancial, sem muita demora.
	A comida estar pronta em cinco minutos  avisou-a.
Nenhuma resposta. Mais algum tempo se passou at que a pequena mesa estivesse posta e a comida pronta. Indo at a porta do quarto, chamou-a outra vez:
	Se est preocupada com sua despensa, fique tranquila. No a usei tanto assim. Est bem, quantidade  uma coisa relativa. Mas vou repor o que gastei, certo?
A porta no se abriu. Depois de hesitar um pouco, concluiu que seria intil insistir. Estava se sentando  mesa quando ouviu Rita sair do quarto.
Sem nada dizer, colocou um pouco do preparado no prato vazio, no lugar ao lado do seu. Tambm em silncio, Rita se sentou, mas no fez meno de pegar o garfo. Fitou a omelete de queijo como se estivesse diante de uma rao aliengena.
	Experimente. Com um pouco de sal e pimenta ficar quase to saboroso quanto suas plulas de vitamina  brincou Na te.
Ao ouvir aquilo ela riu. Ento experimentou a comida e voltou a se recostar na cadeira, engolindo sem dificuldade. Levantou-se e foi depressa para o quarto, votando com o caderno de redao na mo. Aquele mesmo do qual ele lera um trecho antes de dormir, naquela fatdica noite.
	Voc estava perguntando a respeito do que iria fazer enquanto estivesse aqui, no ?  perguntou Rita.  Redao  meu maior problema nesse semestre. Eu agradeceria se pudesse dar uma olhada nisso aqui e...
	Corrigir?
	Por favor, s no use uma caneta vermelha. Meu professor parece ter fascinao por essa cor.
Depois de folhear o caderno, Nate concordou.
	Tem certeza de que ele no usa um spray?
Nate se lembrou da redao sobre "caa de marido".
O problema de Rita no era exatamente gramtica, mas a estrutura de texto e o foco no assunto.
A leitura daquilo o deixou com a sensao de que estava assistindo a um debate poltico, a um filme estrangeiro sem legenda e a uma palestra sobre biologia aliengena, tudo ao mesmo tempo.
Com certeza, sua hesitao em aceitar a tarefa ficou clara em sua expresso, j que Rita pegou o caderno de volta e o colocou embaixo do brao, de maneira defensiva.
Ento olhou ao redor de si, como se estivesse tentando encontrar outra soluo. De fato, parecia estar quase entrando em pnico. Talvez estivesse prestes a perder o semestre, concluiu Nate.
Com uma expresso calma, ele estendeu a mo e pegou o caderno.
	Consiga uma caneta de outra cor para mim, est bem?
"Como subir na escala social", leu, ao visualizar o ttulo da primeira pgina ainda no decorada em vermelho. Seria aquele o nico assunto na mente de Rita?
	Voc no tem um computador?  indagou ele, ao v-la se sentar e lhe entregar uma caneta.
	A biblioteca da escola tem alguns, mas quando posso ir at l esto todos ocupados. Como minha letra  boa, os professores aceitam que eu entregue tudo manuscrito. Mesmo assim, isso me penaliza em meio ponto. Um "C" vira um "C menos" e assim por diante.
Ao v-la sorrir, constrangida, Nate sentiu um impulso de pux-la para si e confort-la. Contudo, seu bom senso o deteve. Seria mais seguro focar sua ateno no texto.
Depois de l-lo trs vezes, comeou a fazer anotaes na pgina.
	O que est fazendo?  indagou ela.
	Editando. Esta sentena est grande o suficiente para formar duas frases. Onde arranjou tantas palavras de cinco slabas?
	No dicionrio. Alm disso, eu leio muito. Gosto de aprender palavras novas e de me inspirar. Lem-bre-se que desejo sair daqui e de que no quero parecer ignorante quando chegar a algum lugar.
	Com esse tipo de redao, s conseguira andar em crculos. A primeira sentena afirma a mesma coisa de trs maneiras diferentes. A segunda a contradiz e a terceira muda o assunto. Com todas essas palavras enormes jogadas fora de contexto ao longo da redao, acho que seu trabalho receberia um "D menos". Com a penalidade de entreg-lo manuscrito, cairia para "E".
Por que estava sendo to duro com ela? No agira assim nem mesmo com seus piores assistentes, que no tinham metade da habilidade de Rita em escrever. Mas, mesmo depois de tanto exagero, ela estava se portando melhor do que qualquer profissional com quem ele lidara. Recebendo um olhar sincero, ouviu-a respirar profundamente e dizer:
	Ento preciso de sua ajuda. Ensine-me a fazer isso da maneira correta.
A voz dela no trazia mgoa nem autopiedade. Apenas dignidade. Aquilo o abalou. Colocando a caneta sobre a mesa, encarou-a de frente e notou lgrimas se acumulando naqueles belos olhos azuis.
 Est bem. Vamos comear pelo princpio  disse Nate.
Estava ciente de que seu tom fora carinhoso. O mesmo que usava com todas as pessoas queridas, como seus amigos. Contudo, o tremor em seu estmago e o calor que o invadiu eram sintomas muito, mas muito diferentes daqueles que envolviam qualquer tipo de amizade.
CAPITULO VII

Mas s se passou uma semana!  protestou Al, olhando para cada um dos membros do conselho, e vendo seus rostos expressarem muito pouco otimismo.
	Se quer minha opinio, eu diria que no est indo nada bem  falou Norm.
	Ora, Nate est ficando na casa de Rita at depois da meia-noite. Isso deve significar algo, no?  questionou o dono do restaurante.
	Digamos que, ou ela tem problemas srios com redao, ou o encanador  um pssimo professor.  Fred se ajeitou na cadeira ao falar.  Sim,  s isso o que eles vm fazendo todos os dias: estudar. Ouo-o falar sobre estrutura de sentenas o tempo inteiro.
	E sobre dar voltas sem chegar ao assunto  completou Lottie, com ar desanimado.  Parece que esse  o maior problema dela em redao, pelo que ouvimos.
	Que seja  falou o velho, concordando com a explicao da esposa.  De qualquer maneira, no est acontecendo nada significativo.
	Nesse caso, esperaremos na retaguarda mais um pouco  sugeriu Al, observando os olhares de desaprovao de todo o grupo.  Mas tambm podemos aumentar a presso sobre eles.
Um burburinho preencheu o restaurante. Todos pareceram concordar e se animar com a proposta. O gordo presidente do conselho secreto pde contar quinze sorrisos, cada um com um brilho mais ameaador do que o outro.
Aquilo estava ficando srio.
Rita no se lembrava de ter ficado to cansada em toda sua vida. No apenas no aspecto fsico, mas tambm no mental. Vinha tendo crises de esquecimento. Quando no anotava o pedido, ao chegar no balco j no sabia ao certo se o cliente pedira suco de laranja ou refrigerante de laranja.
Se bem que os clientes tambm no estavam ajudando nem um pouco. Um simples "misto quente" havia se transformado em "po de forma branco, com presunto magro, queijo prato fatiado bem fino, um pouco de maionese de um dos lados e duas rodelas finas de tomate".
At parecia um compl! Talvez a campanha casamenteira houvesse sido substituda pelo tema "Como Enlouquecer Rita".
No. Aquilo deveria ser mesmo resultado da falta de horas a mais de sono. Cada vez que fechava os olhos, via um texto cheio de erros e as correes que precisava fazer. Parecia estar ouvindo a voz de Nate a seu lado, dizendo para manter a objetividade e tudo mais.
J podia at se imaginar adormecendo em sua cama, com o caderno no colo, com Nate sentado a seu lado. Ento ele se deitaria no espao vago e se aproximaria devagar...
 Est me escutando, Rita? O que acha disso?  perguntou a voz incisiva de Al, interrompendo-lhe os pensamentos.  Seu encanador no cobrou pelo conserto da mquina de lavar da sra. Mayfield. E foi a mesma coisa com aquela famlia nova, fora da cidade. Norm comentou que o aquecedor deles estava quebrado desde o inverno e, por vontade prpria, Nate Morrow foi l e o consertou de graa! O que me diz disso?
Rita deu de ombros. Naquele ritmo, Nate acabaria mesmo se tornando o novo heri da cidade. Quando o dispensasse, ao final das duas semanas, provavelmente seria eleita a nova vil da cidade. Por certo, iriam mergulh-la em um tanque cheio de cola e ench-la de penas.
	Bem  prosseguiu Al , acho que isso s pode significar uma coisa: at que enfim voc encontrou um homem realmente especial!
	Obrigada. Mas quando chegar a hora, lembre-se de que gosto de amarelo. Em vez de penas de galinha, usem de canrio, est bem?
Al franziu o cenho.
	Rita? Tudo bem com voc?
O som da sineta da porta a salvou de precisar dar uma explicao. Era Chester, o carteiro. Enquanto se aproximava do balco onde ele apoiou a bolsa, Rita o viu colocar as revistas de lado e pegar uma pilha de cartas. Ao notar um envelope usado para correspondncia area, comeou a vibrar por antecipao. S poderia ser carta de Howard!
Depois de entregar alguns envelopes a Al, Chester pegou aquela carta diferenciada e a entregou a ela.
	Sabe que eu no poderia fazer isso, no ? A correspondncia deve ser entregue no endereo da casa, e no ao prprio destinatrio.
	Ei, pare de reclamar e passe isso logo para ela!  esbravejou Al.
	Obrigada  disse Rita, pegando o envelope antes que o homem mudasse de ideia.
Afinal, notcias de Howard. Ao ver o destinatrio, sentiu-se confusa, pois deparou-se com sua prpria letra. Demorou at perceber que havia um carimbo de devoluo por fora do envelope. Era a ltima carta que enviara a ele. A mensagem do correio informava que no havia ningum com aquele nome no local de entrega.
Era a terceira carta, enviada quatro semanas antes. O que acontecera s duas primeiras mensagens? Teriam sido extraviadas ou Howard decidira no responder?
	O que foi?  indagou seu patro.
	Nada.
Ao responder, colocou a carta no bolso do avental.
	Nada?  questionou o carteiro, indignado.  Aquele esnobe do namorado dela est mandando as cartas de volta. Se querem minha opinio, ele no vai...
	Ningum pediu sua opinio  interrompeu Al.
	Howard deve ter se mudado para o prximo local da expedio. Ir escrever assim que se instalar.
Rita sabia que dissera aquilo para convencer mais a si mesma do que os outros. Precisava se preparar para ter de cuidar de tudo sozinha. Claro que havia uma grande possibilidade de tudo aquilo no passar de uma falha do correio, mas no era certeza. Oh, Deus, como queria ter alguma notcia dele.
	Acredite no que quiser  falou Chester, antes de sair.
	Tudo bem com voc, Rita?  perguntou Al, preocupado.
Para Rita, o lugar pareceu mais frio do que o habitual. Foi preciso se conter para no estremecer com um calafrio.
	Estou tima. Mas preciso ir. Nate est me esperando em casa. Estou atrasada.
Ao sair, passou pela vaga vazia de Suzzie, que estava na oficina de novo. Seu carro era um exemplo do restante de sua vida: no funcionava. Sentiu vontade de chorar, mas no poderia faz-lo. Se o fizesse, estaria demonstrando para toda a cidade que no podia aguentar sozinha os imprevistos da vida. Era hora de enfrentar a realidade. Teria de ter aquela criana sozinha.
Ao chegar em casa, subiu a escada em ritmo apressado, mas parou ao chegar  porta. Daquela vez, o desnimo demorou mais para domin-la, mas o fez com maior intensidade.
Nate no estava sentado em seu capacho e no havia nem sinal dele nas proximidades. Poderia jurar ter visto a perua dele estacionada do outro lado da rua, mas no confiava na prpria memria. No naquele dia.
Pela primeira vez, tomou conscincia de quanto gostava da companhia dele, mesmo quando tudo o que faziam era discutir sobre pronomes, frases e verbos. Ele era a nica pessoa que a levava a srio. Mesmo que no concordassem em tudo, sempre respeitavam as opinies um do outro.
Mas no importava que Nate no estivesse ali. No pretendia mesmo compartilhar aquele ltimo problema com ele. No que dizia respeito a Howard, provavelmente ele iria se portar como os nativos de Hooperville.
Ao abrir a bolsa para pegar a chave, esbarrou no envelope que ali colocara antes de sair do restaurante.
Sem compreender bem o motivo, sentiu sua respirao acelerar, assim como o ritmo de sua pulsao. Uma onda de tontura a dominou por um instante, como efeito da ansiedade. Aquilo deveria ser o que as pessoas vinham classificando como crise de pnico. Estava mesmo estressada.
Com fora de vontade, respirou profundamente algumas vezes e se controlou. Sempre fora forte. Iria superar aquela crise tambm. Se as coisas no estavam funcionando, iria descobrir um modo de reverter aquela situao.
Ao colocar a chave na fechadura, descobriu que a porta estava destrancada. Seu tio Fred deveria ter consertado o aparelho de ar-condicionado de seu quarto, que estava quebrado havia dias. Acabaria encontrando um bilhete dele quando entrasse em casa.
Em vez disso, porm, encontrou Nate mexendo em uma parafernlia de fios e de peas de computador na cozinha. Parecia haver mais coisas do que sua pequena mesa poderia suportar e alguns equipamentos estavam espalhados at no cho e nas cadeiras. Algo que parecia ser uma impressora havia sido colocada sobre a pia.
	Ol!  cumprimentou ele, sem se virar para olh-la.
Rita entrou no aposento, espremendo-se para passar entre as cadeiras e a mesa ocupadas.
	O que  tudo isso?
	Um computador  respondeu ele, ainda sem encar-la.
	Isso eu percebi, mas o que voc est fazendo?
	Apenas me certificando de que nunca mais precise ler um manuscrito seu.
A resposta veio de baixo da mesa, onde ele estava ligando alguns fios.
	Mas o equipamento est espalhado por todos os lados! Onde  que vou comer?
	Voc no come, lembra-se? Oua, meu novo sistema chegou ontem e no preciso de dois. Voc, por outro lado, parece estar precisando de um desesperadamente.
	Mas...
	O que queria que eu fizesse? Que jogasse tudo
fora?  indagou Nate, encarando-a com uma expresso que a lembrou a de um garoto que acabara de descobrir que dera rosas a uma garota alrgica a flores.  Certo, ento eu jogo tudo fora.
	Certo. Quer dizer, no! No jogue fora. Mas, por qu?
	J lhe disse. Tenho um novinho.
	Sabe o que quero dizer. Por que est fazendo isso? Por mim? Voc no concorda com nada do que estou tentando fazer.
	No exagere. E um computador velho. Pode ser que nem chegue a funcionar at o final do semestre.
	No invente.
	Eu?
Quando ele a fitou com ar surpreso, suas sobrancelhas arqueadas lhe deram um irresistvel aspecto de garoto inocente.
	Sim. Est sendo gentil comigo. No tente diminuir sua atitude como se no fosse nada. Voc nem mesmo gosta de mim  falou Rita, como se o estivesse acusando de um crime.
Se a hesitao dele houvesse durado uma frao de segundo a menos, seria impossvel perceber que ele ficara magoado. Mas notou que se esforou para dar de ombros.
	E ento? Quer ou no o computador?
Aproveitando o tempo precioso que tinha para responder, Rita o fitou com ateno. Os olhos castanhos de Nate brilhavam com expectativa e sinceridade. Como sempre, no parecia haver nenhuma segunda inteno na atitude dele.
	Sim, quero. Muito obrigada  aceitou, com um sorriso gentil.
Como se tivesse de se esforar para conter um suspiro aliviado, ele balanou a cabea afirmativamente, voltando  montagem do equipamento. Ao final, tudo parecia limpo e organizado. Puxando uma cadeira em frente ao teclado, Nate disse:
	Por favor, faa as honras.
 Nunca tive chance de usar um desses na escola. Espero que me ensine a usar esse negcio.
	No acredito que uma pessoa to vida por sair daqui e subir na escala social no esteja em dia com a tecnologia. Imaginei que ficasse "plugada" o tempo todo, esperando pela apario do homem perfeito na Internet.
Duas lgrimas atingiram o teclado antes que Nate pudesse tir-lo do caminho.
	Ei, desculpe-me, sim?  murmurou ele.
	No se incomode.
	Acha que isso  possvel? Ver uma mulher chorar me incomoda muito. Na verdade me deixa bem preocupado.
	No  nada. Apenas a escola, a carta que voltou, essa mania casamenteira e... Ora, tudo! As coisas esto muito... Entende?
At ela mesma percebeu que suas palavras no estavam fazendo sentido.
	Oua  prosseguiu , estou um pouco tensa no momento.  que...  Ao ver a expresso de arrependimento no olhar dele, desistiu de continuar.  Ora, que diferena faz, no  mesmo?
Ao acabar de dizer aquilo, j estava de p. Correu para o quarto e fechou a porta, encostando-se contra a madeira. Se deitasse na cama, no poderia conter o choro. Precisaria ser forte. Se no por si mesma, ao menos pelo beb.
A primeira batida  porta foi to suave que pareceu significar que Nate no queria ser atendido. Contudo, o som foi se tornando cada vez mais forte e insistente.
	V embora  pediu Rita, quando no estava mais suportando o rudo.
	No antes de voc sair da. Escute-me. Sinto muito. Foi uma brincadeira de mau gosto. No vou desistir at que saia da.
	Ento vou chamar o xerife e pedir para lev-lo para a cadeia.
	V em frente e faa isso. S que o telefone est aqui fora.
Fred logo ouviria o barulho e iria investigar, mas aquela era a ltima coisa de que ela precisava. Fazendo a expresso mais brava que conseguiu, abriu a porta de uma s vez.
Nate, que devia estar apoiado  porta enquanto batia, avanou quarto adentro. Por pouco os dois no colidiram. Foi difcil ignorar o sorriso de arrependimento iluminando aquele rosto atraente. Notando um momento de hesitao de sua parte, ele fez uma expresso ainda mais arrebatadora, levando-a a tomar uma medida rpida, antes de acabar sorrindo tambm.
Passando depressa por ele, Rita saiu e parou ao lado da porta.
	Pronto, sa. Agora  sua vez.
A princpio, ele no se moveu. Ento se aproximou devagar, envolvendo-a com seu calor e seu perfume. Parou apenas quando havia menos de um palmo separando-os.
	Acho que devemos comear de novo  disse Nate, fitando-a nos olhos.
Algo a levou a acreditar na sinceridade dele. Talvez o fato de estar passando por um perodo to complicado a houvesse levado a valorizar uma presena estvel a seu lado. Ao desviar o rosto um instante, avistou o envelope encostado na bolsa, sobre a mesinha-de-cabeceira. Aquilo a fez sentir-se fraca e estremecer outra vez. O que estava acontecendo com ela?
S percebeu que estava chorando quando sentiu os dedos de Nate enxugando suas lgrimas. O toque dele era gentil e sua voz carinhosa. Contudo, em vez de pression-la contra seu peito em um abrao, segura-va-a pelos ombros, a distncia.
Nate a encarou por alguns segundos, como se estivesse em dvida a respeito de o que fazer. Depois de uma longa pausa, ele soltou um suspiro e puxou-a para si, abraando-a.
A princpio pareceu algo apenas superficial, mas em instantes Rita se viu aninhada naqueles braos fortes, que a apertavam de maneira firme e carinhosa. En-tregou-se ao momento, liberando a ansiedade que a consumia. Estava cansada de represar as mgoas. De fato, no chorava daquela maneira desde sua infncia.
Porm, junto  proteo daquele peito forte, sentiu-se segura o suficiente para se tornar inocente outra vez. S mais uma vez.
CAPITULO VIII

Nate sabia que estava enrascado. Quando viu Rita com a mo na maaneta da porta, tentando parecer inatingvel, tivera certeza de que no resistiria e de que tentaria ajud-la.
Deveria ter sado sem hesitar, mas quando fitou aqueles brilhantes olhos azuis, marejados de lgrimas, seu corao o deteve. Mesmo com seu instinto de au-topreservao alertando-o para no se envolver, era impossvel negar a urgncia que sentia em apoi-la e t-la junto de si. No apenas por ser o campeo em reconstruo de relacionamentos na corte, nem por ser o encanador "samaritano" da cidade. Mas por ela ser quem era. Simplesmente Rita.
Leal, sensvel e, no momento, magoada. De algum modo, tocara em algum ponto delicado daquele corao. Por que tivera de fazer aquela brincadeira sobre escalada social? Bastava ensin-la a usar o processador de textos, nada mais.
 Desculpe-me  murmurou ela, enxugando as lgrimas com o dorso da mo.
A respeito do que ela estava se desculpando? Mas preferiu conter a pergunta para evitar mais mal-entendidos.
Sem perceber, deixou-se levar pelo momento. Estava gostando de t-la nos braos. No saberia explicar, mas aquilo lhe parecia correto de alguma maneira.
Entretanto, precisava se lembrar de que no daria certo. Seu plano de vida no coincidia com as ambies de Rita. Deveria contar sobre Nina e a respeito de sua deciso de nunca mais se envolver com ningum. Nunca mais.
	Oua, Rita...
Sua voz desapareceu no momento em que a viu levantar o rosto para encar-lo outra vez. Os olhos muito azuis pareciam capazes de ler a alma de um homem, tocando-o profundamente.
	Eu sei  murmurou ela, colocando as mos em seu peito para se afastar.  Est tarde.
O movimento o incomodou por algum motivo. Era como se, ao se afastar de Rita, algo dentro dele estivesse prestes a morrer.
	No, no est tarde  disse a ela.
	Nate, eu...  Rita tentou falar mas, ao pronunciar o nome dele, teve de se silenciar.
Aquilo lhe soara to correto...
Mas precisava contar sobre Howard, e explicar que, apesar de no haver obtido resposta s cartas enviadas, deveria esper-lo, no caso de se tratar de algum mal-entendido. No poderia se envolver com outra pessoa.
A certeza de que aquilo estava errado foi crescendo dentro dela. Era preciso acabar com aquela onda de calor que parecia envolv-la com uma fora absurda, sempre que Nate se encontrava por perto.
"Oh, no", pensou, ao fitar os brilhantes olhos castanhos transbordando sentimentos. S o que pde fazer foi balanar a cabea negativamente. Mas j era tarde demais.
Eu sei  sussurrou ele, acompanhando o movimento de sua cabea ao se aproximar, at que seus
lbios se encontrassem.
No minuto em que se tocaram, Nate teve conscincia de que desejara beij-la desde o primeiro instante em que a vira. A paixo que o envolveu o deixou surpreso, assim como a intensidade da reao de Rita. Sentiu os braos delicados o envolverem com fora, como se ela temesse que algo fosse capaz de separ-los.
Conforme suas mos a acariciavam, sentiu os dedos suaves de Rita acompanhando o traado de suas costas, explorando cada msculo. De repente, sentiu aquele toque quente sob sua camisa, diretamente em contato com sua pele. Em um movimento decidido, livrou-se da parte de cima da roupa e jogou-a em um canto.
Os msculos de seu corpo pareciam estremecer conforme o tecido macio da roupa dela roava contra seu peito. Mas aquilo no o satisfaria. Queria toc-la por completo, sem nenhum empecilho entre eles.
Rita adorou o modo como as mos dele deslizaram por seu traje, tentando localizar fechos e botes, na esperana de abri-los.
	Aqui no  murmurou ela.
No foi preciso mostrar o caminho. Em silncio, deixou que ele a levasse para o quarto. Aos poucos, sem perceber, foi despindo-o, como se cada etapa do processo fosse algo que j houvessem feito juntos dezenas de vezes. Mas, ao mesmo tempo, a descoberta era algo novo, maravilhoso.
Rita perdera a noo de que precisava respirar. Podia ouvir o ritmo ofegante de ambos, mas no sabia distinguir de quem era cada flego. Tendo de conter o desejo de gemer alto, ocupava seus lbios mordiscando ora aqueles ombros fortes, ora o peito coberto de plos macios.
Sentiu as mos firmes tirando suas roupas enquanto ela prpria tateava aquela pele quente e nua. Nate, assim como ela, tambm estava mais do que pronto, mas parecia estar se contendo, provocando-a com carcias demoradas e ousadas.
No se lembrava de haver sentido tanto prazer na vida. Nem mesmo com How...
	No!  gritou de repente, arregalando os olhos e empurrando o peito dele.
Com um movimento rpido, retirou o corpo de baixo do dele.
"Oh, no. Ele est mesmo nu. Isso  real!", pensou. Ela tambm estava sem roupa! Mais um segundo e teriam consumado algo que no poderia acontecer.
"No", disse a si mesma, em pensamento. "No posso fazer isso. Estou..."
	Grvida  disse Rita, em voz alta.
Pareceu-lhe estranho que a expresso confusa de Nate se tornasse um sorriso de repente.
	Por nos beijarmos? Acho que no. Caso no tenha se precavido, eu posso faz-lo. No pense que planejei isso, mas sempre tenho preservativos na carteira.
Ele tentou pux-la para perto. Foi preciso empurr-lo com mais fora e se afastar, chegando  beirada da cama. Agarrando o travesseiro e o lenol, Rita se cobriu o mais depressa que pde.
	Certo, vou buscar agora  disse Nate, soltando um suspiro.
	No. Eu estou grvida. Voc no entende.
	Tem razo. No mesmo.
Rita fez uma pausa. Havia muito o que explicar. Como permitira que aquilo acontecesse? Toda a cidade vinha tentando faz-la esquecer Howard, mas havia conseguido escapar de todas as armadilhas at ento.
"Estou nua", pensou, "na cama, e justo com..."
	Voc!  disse ela, indignada.  Por que voc?
Ao v-lo ficar de p, notou sua expresso confusa e preocupada.
	Ei, calma a. O que quer dizer com isso? Acabei de chegar aqui e, se pensar bem, no cheguei longe o suficiente para tanto.
	No de voc. De Howard, meu noivo. O ex-noivo, j no sei mais. Depois que ele partiu, todos pensaram que havia me abandonado grvida, a colocaram esse plano em andamento.
	Plano? Que plano?
	Mas ento voc surgiu...  prosseguiu Rita, falando consigo mesma em voz alta, sem ouvi-lo.  A carta voltou e houve essa histria com o computador.
Era demais para um s dia. Quem no ficaria estressada naquela situao? Sua defesa falhou. Precisava apenas de um ombro e o de Nate era o que se encontrava mais prximo. Mas ir para a cama com ele? No era essa sua inteno!
	No, eu no poderia ir adiante com isso  continuou ela, falando em voz alta.
	Ento voc est nisso tambm, no ?
	No qu?
	Eu sabia que havia algo acontecendo, mas no isso. Como fui idiota!  Nate comeou a se vestir.  Grvida? Tenho certeza de que, segundo o plano, deveria me contar tudo daqui a um ms.
	Mas voc sabia!
	 mesmo? Quando foi que me contou?
Rita ficou esttica. Franziu o cenho com tanta fora que sua testa doeu. Contar a ele? Jamais falara aquilo para ningum. No fora preciso faz-lo. No em Hooperville.
	Pelo amor de Deus, essa  uma cidade pequena. Todos sabem.
	Correo, minha cara. Todos menos eu. Percebi que os casamentos sob mira de espingarda ainda esto em moda por aqui, mas a regra manda que o homem levado ao altar seja o autor da "transgresso", e no um inocente recm-chegado.
	Est achando que eu tentei agarr-lo em uma armadilha? Agarrar voc?
	O que h de errado comigo? Droga, no acredito que perguntei isso. Claro que h algo de errado comigo.
Ao acabar de falar, Nate vestiu a roupa e saiu andando depressa. Seguindo-o, Rita largou o lenol e vestiu o robe que deixava pendurado ao lado da porta. Quando chegou  porta da sala, viu-o parar no meio da varanda e se virar, perguntando:
	E s isso o que tem para me dizer?
	O que mais quer ouvir? J contei que estou grvida e pronto.
	No brinque. A "moa mais prendada da cidade"? Ora,  essa a ideia da oferta especial "dois em um" da semana?
	Rita, tudo bem a em cima?  indagou Fred, nos primeiros degraus da escada, j com a cabea na altura do piso do andar de cima.
Ela suspirou. A ltima coisa que queria era a interferncia de seus preocupados vizinhos.
	Oh, sim, est tudo timo  respondeu Nate.  Se desconsiderarmos um caso clssico de embuste.
Fred subiu o restante da escada e ficou ao lado dela, antes de indagar:
	Por que ele est usando linguagem de advogado?
Dando a volta pelo tio, Rita se ps  frente dele.
	Eu no tentaria conquist-lo nem para passar o tempo!
Ao ouvir aquilo, Fred comeou a saltitar feito um boxeador atrs dela.
	Diga que no se importa, menina, e acertarei o queixo desse insolente, antes de chut-lo para fora daqui. Basta falar.
	Quieto  pediu Rita.
	Entendo  falou Nate.  Esqueci que sou um "joo-ningum". Imagino que foi por isso que no pde ir adiante. Acho que prefere esperar at setembro para tentar a sorte com a prxima turma da universidade.
	Posso acert-lo agora?  indagou Fred.
	Fique  vontade  respondeu ela, sem pensar.
O velho avanoupelo lado dela como um personagem de filme em preto e branco, mas muito depressa.
	Oh, no!  exclamou Rita, tentando impedi-lo.
Mas era tarde demais. Houve um som estranho quando o punho de Fred colidiu com o queixo de Nate, que mal se moveu com o impacto. O agressor, sim, comeou a andar em crculos, massageando a mo e reclamando que estava velho demais para aquilo.
Boquiaberta, Rita viu uma gotinha de sangue brotar do lbio de Nate, que levou a mo ao rosto para testar a articulao do maxilar. Os lbios convidativos insinuaram um sorriso desanimado.
	Obrigado  disse ele.  Acho que eu precisava disso.
Quieta, observou-o descer a escada com calma, andando como se nada houvesse acontecido.
Eu deveria t-lo expulsado antes  disse Fred.  Poderia t-lo pego pelo colarinho e o arremessado escada abaixo. Posso at mesmo ir atrs dele e lhe ensinar uma lio. Basta dizer que  isso o que quer, menina.
	Tio  murmurou Rita, com um tom exausto.  Cale-se, por favor.
Passando por ele, entrou em casa e fechou a porta. Foi direto para a cama, deitar e chorar.

CAPTULO IX

Nate pegou o telefone e o levou ao ouvido para ver se estava funcionando bem, voltando ento a coloc-lo no gancho. No havia nada de errado com o aparelho.
Logo cedo, todos os chamados em sua agenda haviam sido cancelados, em um perodo de quinze minutos. Desde ento, quatro horas haviam se passado em total silncio. Nenhuma emergncia. Nada.
O aparelho no estava tocando, mas deixava uma mensagem evidente: as notcias andavam muito depressa naquela cidade. Mas que armadilha! Como pudera cair nela com tamanha facilidade?
Encostando-se no portal da loja, ficou alguns minutos olhando o efeito do sol quente de vero sobre o asfalto. Em um dia quente como aquele, era normal que no houvesse ningum passando pela rua, em frente a sua loja. Contudo, nunca vira tanto movimento no restaurante de Al.
Muitas pessoas, incluindo alguns de seus ex-clien-tes, entraram e saram to depressa que pareciam estar prestando condolncias a uma viva. Ningum o encarou de maneira direta. E at mesmo aqueles que se voltaram em sua direo optaram por ignorar seu cumprimento.
Bem-vindo ao boicote  disse a si mesmo, antes de voltar para dentro da loja.
Rita estava arrependida de ter ido trabalhar naquele dia. Enquanto Norm parecia o "poderoso chefo", conversando aos cochichos com cada pessoa que se sentava  sua mesa, desde o meio da manh, Fred no parava de repetir a histria do fiasco da tarde anterior, para cada um que entrava no restaurante.
Quando duas das irms solteironas chegaram, uma foi direto para a mesa do barbeiro e outra foi at balco pedir um caf.
	Sabe, querida, ficamos muito tristes ao saber o que aconteceu. Mas agora ele aprender a lio.
Ao ouvir aquilo, Rita estreitou o olhar.
	Quem aprender o qu?
	Ainda no  nada oficial  falou a mulher. Rita lanou um olhar para Fred e ento para a loja
de Nate. A perua estava estacionada  porta e o ventilador de teto ligado. Ele parecia estar se mexendo l dentro.
Aquilo estava errado. Calmo demais. At ento, ela nunca o vira to parado durante aquele horrio, desde que chegara  cidade.
	Tio Norm  falou ela, assustando-se com o tom ameaador da prpria voz.
O barbeiro passou a demonstrar um sbito interesse no contedo de sua xcara. Ao se virar para Al, viu-o se concentrar em continuar queimando dois hambrgueres, sem perceber o que fazia. Parecia que o conselho secreto havia finalmente aprendido a guardar um segredo.
	Tio Fred?  chamou ela, voltando-se para sua ltima fonte de informaes.  O que ainda no  oficial? O que vocs fizeram?
	Nada com que deva se preocupar  respondeu o velho, cabisbaixo, enquanto os outros se espalhavam pelo restaurante, dando-lhe as costas.  Voc j tem muito com o que se preocupar. Deixe que ns providenciemos isso, sim? Cuide apenas de nosso novo beb.
Aquele foi o limite.
	Nosso? Como  que ? Como ousam pensar que...
	Calma  interrompeu Al.
	Como ousam?
	No se agite  interveio uma das solteironas.
	Mas que audcia a de vocs!
	Isso far mal  criana  afirmou Norm, j  porta.
Quando Rita se deu conta, todos haviam sado. Al
ficou quieto e nada disse. Por sua expresso, daria tudo para poder ter fugido tambm.
Ela deveria ter se rebelado antes. A vida era sua e ningum tinha o direito de pressionar Nate por ela. Se fosse necessrio tomar uma atitude qualquer, ela mesma o faria. No precisava de mos alheias.
Logo tomaria providncias para que o conselho secreto desistisse de qualquer plano absurdo que houvessem colocado em andamento.
Quem olhasse para Rita naquele momento, na varanda atrs do restaurante, no diria que ela era a mesma pessoa que fizera todos fugirem dali no meio da tarde. Estava muito calma e compenetrada.
Como pudera pensar em ser agressiva com eles? Jamais quisera mago-los. Todos a consideravam como algum da famlia. O fato de haver perdido os pais lhe possibilitara ter a maior quantidade de parentes que algum conseguiria imaginar.
Contudo, tinha o direito de impor certos limites. Deveria apenas tomar o cuidado de no desrespeitar ningum. Era hora de entrar em ao. As luzes estavam quase apagadas e as cortinas fechadas. S lhe restava rogar para que a porta estivesse aberta. E estava.
Engolindo em seco, entrou no restaurante.
. Ol, pessoal  disse, parando ao lado da primeira mesa.  Estou feliz em poder participar desta reunio que diz respeito a mim e a meu futuro. No recebi meu convite, mas imagino que ele tenha se perdido no correio.
Rita observou quinze pares de olhos se arregalarem, enquanto quinze bocas se abriam com ar estupefato.
Nate escutou uma batida intensa a sua porta, mas tentou ignor-la. Eram onze horas da noite. Somente ms notcias chegavam quela hora. Talvez os cinco caubis tivessem voltado, e dessa vez para expuls-lo da cidade.
Pensando bem, resolver aquilo de uma vez por todas parecia uma perspectiva mais agradvel do que no agir. Por isso, levantou-se e vestiu uma cala jeans, antes de descer.
Era Al parado em frente a sua porta. Depois de olhar ao redor dele, Nate achou estranho no ver mais ningum.
	Estou sozinho  disse o cozinheiro.  Quem mais voc esperava?
	Ningum, mas um comit de enforcamento no me surpreenderia.
O riso do homem parecia to desengonado quanto sua comida. Com um gesto, deixou claro que gostaria de entrar. Ento disse:
	Precisamos colocar alguns assuntos em ordem. Acho melhor conversarmos sentados.
	Entre  convidou Nate.  Sente-se a.
		Obrigado. Irei direto ao assunto.  verdade que Rita est grvida, e  verdade que estamos tentando cas-la com algum. Tambm  verdade que o tnhamos como principal candidato para ocupar essa posio. Mas da maneira como vemos, voc deveria estar lisonjeado.
Rindo e tossindo ao mesmo tempo, Nate comeou a andar de um lado para outro.
	Esta cidade tem uma maneira interessante de designar prmios. O "beb surpresa" que esto oferecendo junto com a "moa mais prendada da cidade"  um bom exemplo. Alm disso, como eu j disse a Rita, no gosto de embustes e farsas.
	Em uma cidade pequena como essa, no existem segredos. Todos conhecem os detalhes das vidas de seus vizinhos. Nem sequer ocorreu a ela que algum pudesse no saber da criana. Digo mais: muitos de ns no hesitam em fazer planos ou at armadilhas, mas no Rita. Alm disso, ela no estaria interessada em um homem reservado e ausente como voc.
Aquela afirmao o pegou de surpresa.
	Ei, meu negcio  consertar canos e cuidar da minha vida. No acho que isso seja uma postura, ausente. Um boicote, por outro lado, j  outra histria, no acha?
Al riu ao ouvir aquilo.
	Sim, tem razo. Eu deveria ter dito "ignorante". Calma, no se exalte. No precisa mais se preocupar com o boicote. Rita est no restaurante nesse momento, dando um longo sermo no comit que o organizou.
Ela foi defender voc.
Outro choque. Depois de tudo o que dissera, inclusive diante de Fred, Rita ainda estava enfrentando os vizinhos em seu benefcio? Por qu? Pelo visto, seu instinto de preservao havia reagido alm da escala.
	Oh.
	Sim, "sr. encanador". Estamos falando de uma moa que sempre faz a coisa certa. Mas agora  a sua vez. Do meu ponto de vista, voc deve algo a ela.
O burburinho do interior do restaurante podia ser ouvido da calada. Nate estava estudando um modo de entrar de maneira casual, mas o sol quente da manh parecia prestes a derreter o asfalto sob seus ps.
Sem mais demora, acabou de atravessar a rua e entrou. No mesmo instante, todos os olhares se voltaram em sua direo. O silncio foi imediato.
Sentando-se  beira do balco, observou Rita acabar de lavar o bule e ench-lo outra vez na grande cafeteira. S ento encheu a xcara de um fazendeiro que j estava aguardando havia alguns segundos. Foi fcil notar que, durante todo o tempo, ela o olhou de soslaio. Ento a viu se aproximar.
	Caf?
	Suco.
Ao fazer seu pedido, Nate a fitou de alto a baixo. Havia uma enorme camiseta amarela sobre o uniforme dela, com as palavras "Maternidade Explcita" estampadas em letras garrafais na altura do peito. A frase "Beb a Bordo" aparecia logo abaixo, acompanhada de uma seta apontada para a regio de seu ventre. Tudo em cores chamativas.
A viso o fez arquear a sobrancelha, mas a explicao veio em seguida.
	Prefiro deixar tudo s claras  falou ela, enquanto servia o suco.  Algumas pessoas acham que isso  bvio demais, mas estou tentando alcanar aqueles que no so capazes de perceber o bvio. Sabe como , h quem no enxergue uma floresta quando v um monte de rvores, nem o nariz, no meio do rosto, quando se olha no espelho, nem...
	Rita  chamou Al, em tom de censura.
	Bem, sabe do que estou falando.
	No  falou Nate, embora a compreendesse muito bem.
	Quer algo para acompanhar esse suco?
	Preciso falar com voc. Eu lhe disse algumas coisas anteontem e...
	Algumas coisas"? Ento veio para me dizer mais? No creio que ainda haja algo para ser dito entre ns. Diga logo o que vai querer comer. Ovos e torradas?
Ao v-la lamber a ponta do lpis e lev-lo ao bloco de pedidos, ele arregalou os olhos.
	No faa isso! Sabe quantos germes acabaram de entrar em seu organismo?
Arqueando uma sobrancelha, Rita fitou o grafite umedecido e ento o encarou.
	E sobre isso que veio falar? Minha sade?
	No. Vim at aqui lhe dizer que...
	Se no for fazer um pedido de desjejum, no me interessa o que o trouxe at aqui. No pretendo escutar mais nada que tenha a me dizer.
	Oua-o, criatura!  gritou Al, virando-se de lado para a chapa onde cozinhava.
	Sim, escute-o  ecoaram alguns dos clientes.
Nate olhou ao redor e viu que todos haviam parado de comer e se virado para olh-los.
	Est bem  anuiu Rita.  Reconheo quando estou em desvantagem.
	Otimo. Vamos nos sentar ali. Quero falar com voc, e no com todo o restaurante.
Ao ouvi-lo, todos os presentes protestaram, com lamentos e vaias.
	O que quer que seja que tenha a dizer, eles podem ouvir. Alm do mais, quero que haja testemunhas ouvindo qualquer coisa que eu lhe diga. Sem mistrios.
	Certo. Tambm reconheo quando a desvantagem  minha.
Rita tentou evitar fit-lo nos olhos. Se o fizesse, esqueceria tudo outra vez: seu bom senso, seu medos e Howard. No poderia deixar aquilo acontecer de novo.
	Fale.
	Al me contou o que aconteceu aqui na noite passada. Obrigado.
	Guarde sua gratido.
	Isso, guarde para si mesmo  repetiram alguns dos clientes.
Um som estridente veio da cozinha, levando todos a ficar em silncio. O corpulento proprietrio voltou a pendurar a enorme frigideira com a qual batera no balco interno.
	Continuem  disse Al, gesticulando para o casal.
	Bem...  prosseguiu Nate.  Uma vez que salvou meu negcio do boicote, agora estou em dbito com voc.
	Claro que est  garantiu um dos presentes.

	E que dvida!  assegurou outro. Rita se voltou para os vizinhos.
	Ele no me deve nada.

	O que nos diz de um pedido de desculpas?  o mnimo que ele lhe deve  alegou um homem.
	S para comear  falou o cozinheiro.
	Eu peo desculpa.
Voc foi um grosseiro!  acusou uma velha senhora. Nate se virou ento para a multido.
	Sim, fui mesmo.
	E a magoou muito  bradou o irmo mais velho de Fred, sentado  mesa dois.
		Peo desculpa por t-la magoado.
Acompanhar aquele debate estava deixando Rita com tontura. Levando o indicador e o polegar  boca assobiou to alto que todos se viraram para encar-la com olhos arregalados.
	Ei, para quem  esse pedido de desculpa?
	Para voc  responderam todos ao mesmo tempo.
	Otimo  disse ela, voltando a encarar Nate.
	Sim. Peo desculpa por t-la magoado e agradeo o que fez por mim.
Houve um burburinho geral de aprovao entre os clientes. Vrios a incentivaram a aceitar o pedido. Ento Al bateu o pano de limpeza no balco, provocando um estalido.
	Silncio! Deixem Rita pensar. Trata-se de uma acusao sria.
	 mesmo  concordou ela, voltando a ficar alterada.
	Mas agora ele est se desculpando. E em pblico. At admitiu que foi um grosseiro  prosseguiu Al, sorrindo ao v-la fit-lo com ar desorientado.  E nunca ouvi falar de voc guardar rancor de algum.
Assim que a viu abaixar o rosto e suspirar, Nate no perdeu tempo em continuar:
	Como j disse, estou em dbito. Prometi que iria instru-la por duas semanas. Contudo, irei dar toda a orientao de que precisar at o final do semestre.
	Posso me sair muito bem sem a sua caridosa ajuda  replicou Rita.
	Mas ter resultados melhores com meu auxlio.
Foi ento que ela cometeu o deslize de fit-lo nos olhos. Sem perceber, reteve o flego. No entendeu o motivo, mas sentiu um aperto no peito. Queria fugir dali, mas no podia. Sua nica sada era dizer algo para esconder que estava abalada.
	Quem  que precisa de sua ajuda? E da que no vou receber um "A"? O que  uma nota baixa a mais na minha vida?  "Qual o problema se minhas reda-es so feitas  mo?", pensou.  Um trabalho manuscrito  melhor do que nenhum. Pode guardar para si os comentrios a respeito da estrutura de meus textos.  "Afinal, no tenho tempo de fazer algo melhor, graas a meu emprego", concluiu, em pensamento.  Estudarei quando puder, hora aqui, hora l... durante os perodos de calmaria. Al no se importar.  "Acho que estou falando demais", ponderou.  Repito: quem precisa de voc?
	Calma, mantenha o foco  disse Nate, orientan-do-a e franzindo o cenho, demonstrando preocupao.  No perca o objetivo da explicao. Mantenha o alvo em vista.
Ao ouvi-lo, Rita recuou um passo e mordeu o lbio. Nunca conseguiria guardar rancor dele, mesmo que quisesse. No era de sua natureza.
	Oh, est bem. Voc venceu.
	Certo  falou Nate, pego de surpresa.  Otimo!
	Agora chega  murmurou ela, olhando-o de soslaio.
	Antes, deixe-me falar com nossos vizinhos  pediu ele, virando-se para os presentes.  Enganei-me ao concluir algumas coisas naquele dia e falei coisas das quais me arrependo. Mas tenho mais um ponto a ressaltar: eu e Rita no estamos namorando, nem pretendemos faz-lo. Se virem meu carro parado  porta dela, ou estarei consertando o encanamento ou aju-dando-a com os estudos. Fui claro?
	Sim, foi, muito  disseram alguns deles.
	Excelente  concluiu Nate, virando-se ento para ela.  Trgua?
	Trgua.
Entreolhando-se, trocaram um aperto de mos. 0 contato os fez ignorar os aplausos ao redor. Depois de um longo tempo, Rita o viu pestanejar e colocar o bon, antes de se despedir e sair.
Todos no restaurante a olharam com um ar de expectativa.
  uma trgua. Apenas uma trgua.
A explicao no adiantou, porque os cidados ali presentes continuaram a sorrir feito crianas esperando Papai Noel.

CAPTULO X

Era uma trgua, e Nate precisava se lembrar disso com frequncia. Mesmo que durasse mais de duas semanas, seria apenas isso, nada mais. Parando de mexer o molho de tomate, verificou a consistncia do espaguete. Faltavam cerca de dois minutos para ficar pronto.
	Bem? As mudanas ficaram boas?  perguntou Rita.
	O qu?  indagou ele, virando-se para ela, sentada  mesa da cozinha, em frente ao computador e cercada de livros e papis.
	No estava nem escutando a leitura da minha re-dao, no ? Como pode se concentrar tanto em cozinhar?  Ao acabar de falar, ela se levantou e se encostou nele, em frente ao fogo.  Isso est cheirando bem.
	Hum  murmurou Nate, tentando neutralizar a sensao que aquele sutil contato estava lhe causando.
Por mais que tentasse imagin-la no futuro, com muitos meses de gravidez, s o que conseguia era se lembrar daquele corpo perfeito e nu deitado sob o seu, na cama. Como poderia mudar sua linha de pensamento?
	Quanto tempo falta para jantarmos?  indagou ela, levando o dedo na direo da panela de molho.
	No se atreva!  ralhou Nate, batendo de leve na mo dela, com a colher de pau.
		Seu tirano  protestou Rita, lambendo o molho de tomate no dorso da mo.  Mas que excelente cozinheiro. Acho que vou mant-lo no emprego.
De repente, vindo do andar de baixo, surgiu o som de uma msica romntica. No era a primeira vez que Fred insistia em dar sua contribuio para uni-los.
	Estenda a toalha, sim?
	J fiz isso  respondeu ela.
	Otimo  elogiou Nate, olhando para o centro da sala e vendo a toalha colocada no cho, com os pratos e talheres postos.  Bem, leia de novo.
	O qu?
	Esqueceu de sua redao. Prometo prestar ateno, j que queremos um "A" dessa vez, certo?
Quando a viu sentar-se em frente ao computador, soltou um suspiro. Como poderia ouvi-la ler? Aquela msica romntica e o pulsar de seu prprio corao o impediam de pensar em qualquer outra coisa alm dela.
Precisava se lembrar de que era uma trgua. Apenas uma trgua.
	E ento? Conte-me  disse Al.  Como est indo?
	Oh  Rita se surpreendeu.  Est tudo bem. Ele  um bom orientador, muito paciente e gentil, alm de ser um excelente cozinheiro. E est sempre falando sobre minha sade e a necessidade de eu me alimentar direito.
	Ento  um tipo de professor paternalista?
	No, no . Nate  apenas preocupado com o bem-estar das pessoas.
	Isso  timo, mas eu estava perguntando a respeito da escola. Como est indo seu curso?
Enrubescida, olhou-o de soslaio e conteve o flego. Por um momento, pensou que suas orelhas iriam incendiar, de tanto que esquentaram.
Vai bem. Muito bem.
Algumas horas depois, Nate entrou no restaurante e olhou com ateno para todos os cantos antes de se sentar ao balco.
	Mandei-a para casa mais cedo  explicou Al.  No h nada que atrapalhe mais na cozinha do que uma garonete distrada.
	Oh.
	E ento, como est indo?
	At que bem. No estou com aquela mesma sequncia de emergncias dos primeiros dias, mas no h mais boicote. Os negcios esto indo bem.
	Fico feliz em ouvir isso, mas eu estava perguntando a respeito de sua trgua com Rita.
Sentindo uma onda de calor subir-lhe pelo pescoo, Nate precisou engolir o caf que lhe fora servido, antes de conseguir responder. Com certeza, estava com as orelhas vermelhas.
	Ela aprende depressa.  muito inteligente e...
Ao ver o sorriso de Al, interrompeu-se e soltou um
suspiro. Sentiu-se como se houvesse sido pego em flagrante no meio de uma contraveno.
Nate subiu a escada, dois degraus de cada vez, pois sabia que Rita gostaria do que ele iria lhe contar. Quando a viu abrir a porta, precisou conter o mpeto de falar de imediato, indo primeiro at a geladeira para se servir de um copo de limonada.
	Eu a inscrevi...  comeou ele. Interrompeu-se ao notar o ar srio de Rita, que olhava fixamente para sua ltima redao, j avaliada.  Ei, desde quando um "B" merece essa tristeza? Vamos comemor-lo, isso sim.
	S depois de ver um grande "A" vermelho, bem ao lado do meu nome. Tenho mais duas redaes antes do final do semestre. Sero apenas duas chances.
Ao ouvir aquilo, Nate sentiu-se paralisado. O tempo havia mesmo passado to depressa? Olhando ao redor, suspirou com tristeza. Estava mais familiarizado com aquele pequeno ambiente do que com sua prpria casa.
Faltavam somente dois trabalhos, o que significava apenas duas semanas. Com o tempo, a companhia de Rita se tornara algo agradvel e natural, e no parecia mais uma obrigao ir at ali ensin-la. Talvez nunca houvesse parecido.
Mas logo tudo estaria acabado.
Sentindo-se daquele modo, mesmo que ela conquistasse o "A", como poderia celebrar?
Rita estremeceu ao ouvir as prprias palavras. Gostaria de poder fazer o tempo voltar. O final do semestre, que a princpio era um objetivo desejado, tornara-se seu maior pesadelo, j que seria o final de sua trgua com Nate.
Como poderia encarar aquilo?
Fora tolice esquecer de sua situao. Estava grvida do filho de outro homem e ele era avesso a envolvimentos. Se mencionasse como estava se sentindo, le-varia-o a pensar que estava querendo peg-lo em alguma armadilha.
Ao encar-lo, deparou-se com os olhos castanhos fi-tando-a de maneira direta.
	Duas semanas.
Ao ouvir a voz dele, sentiu a respirao lhe faltar.
Ao falar, Nate percebeu que estava paralisado, olhando-a, outra vez. Precisava voltar ao normal.
	Bem, j que fiz a inscrio, acho que devemos comear, de uma forma ou de outra.
	Certo, vamos l. Do que est falando? Redao avanada nvel dois? Informtica para leigos? S espero que no seja para aprender luta na lama. Estou comeando a sentir o peso do meu ventre aumentar.
Logo, mesmo de roupas largas, todos notaro minha "condio".
Com um sorriso cada vez mais amplo, Nate comeou a se sentir melhor. Se fosse ficar apenas duas semanas ali, daria a ela algo para que se lembrasse para sempre.
	Errou todas.
	E ento? Vai me contar ou quer me deixar sem sono a noite toda?
	Curso pr-natal! Aquela histria de respirao "cachorrinho" e essas coisas, sabe?
Ela franziu o cenho, confusa.
	Por qu?
	Ora,  sempre bom saber o que est por vir, no ? Afinal,  sua primeira gravidez.
	No, obrigada. No tenho a menor inteno de frequentar um curso desses sozinha.
	Quem disse que ir sozinha? Inscrevi ns dois. Conclu que posso ser um treinador to bom quanto qualquer marido.
	No.
	Ora, Rita, vamos l.
Sentindo uma sbita coceira no nariz, ela soltou um espirro, curvando-se.
	Otimo! Sabia que concordaria!  aproveitou ele. 
	No sei como deixei que me convencesse a vir. Aquele foi um truque sujo  acusou Rita, sentada de pernas cruzadas no cho, com um travesseiro no colo, enquanto Nate lhe massageava as costas.
	Shh. Fique quieta e respire.
	Isso  ofegar, no respirar  resmungou ela, mas mesmo assim terminou o exerccio.
	Concentrao, mames  disse a instrutora.  Papais, ajudem no processo de concentrao.
	Sinto-me uma idiota. Se essa enfermeira continuar dizendo mames e papais, acho que vou gritar.
Ao sentir o peito dele roar em suas costas, ouviu-o dizer, perto de sua orelha:
	Respire.
Sem discutir, preferiu fazer o exerccio do que deixar a sensao que a dominou continuar a aumentar.
	Agora, turma  falou a enfermeira , o ltimo exerccio  o seguinte: as mames vo se deitar de lado e os papais vo ficar em frente, com uma mo nas costas da parceira e a outra sobre o bebe.
Ignorando a hesitao de Rita, Nate seguiu conforme o ordenado. Ajudou-a a se deitar e se colocou em posio. Talvez por causa da ansiedade pelo toque dele, quando ela sentiu aqueles dedos sobre seu ventre, uma inexplicvel vontade de rir a dominou. Todo o contexto parecia sem sentido, e nem mesmo a respirao ritmada pde conter sua crise de riso.
	Pare de rir. Respire. Concentre-se.
Rita se encolheu. Como explicar que no conseguia pensar em nada, exceto rir, se era impossvel coordenar a fala? Quando viu a expresso de pnico no rosto dele, a crise piorou.
	Respire  implorou Nate.  No envergonhe seu treinador.
Aquilo no poderia ser normal, pensou ele. Rir daquele jeito poderia fazer mal a ela ou ao beb. Mas o que ele poderia fazer? Sem perceber, comeou a esfregar a testa e a tamborilar os dedos sobre o ventre dela.
Ao notar o estava fazendo, concluiu que aquilo poderia estar causando ccegas em Rita. Ento passou a esfregar a barriga dela em um movimento lento mas, de modo automtico, passou a tamborilar os dedos na prpria testa.
Dessa vez, no apenas Rita passou a rir com mais intensidade, mas toda a classe se uniu a ela.
	Respire, sim?
Comeou a mostrar a ela como fazer a respirao, na esperana de ajud-la a se concentrar. Aos poucos, foi ficando mais calmo, como se as risadas houvessem desaparecido. No sabia quanto tempo havia se passado quando ouviu a voz dela.
	Nate, acabou.
Seu transe foi interrompido a tempo de ouvir a enfermeira dizer:
	Turma, vamos agradecer a este lindo casal por haver demonstrado a eficincia da respirao controlada, mesmo com os papis invertidos.
Sob uma salva de palmas, Nate se levantou, aju-dou-a a ficar de p e ambos se curvaram em agradecimento. A risada dela ainda no havia terminado, mas estava quase sob controle.
Com o brao sobre os ombros dela, Nate a conduziu ao saguo para esperar o elevador. Aquele rosto feliz o estava levando a sentir que valera a pena passar por aquele vexame. Rita deveria sorrir mais, pois ficava linda. Enquanto estivesse por perto, iria providenciar para que sempre houvesse algum motivo para haver um belo sorriso naqueles lbios.
	Est rindo de qu, espertalhona? Semana que vem vo querer nos colocar em um palco, isso sim.
Rita o fitou com olhos arregalados antes de comear outra crise de riso.
Isso, divirta-se  prosseguiu ele, rindo tambm.
S ento percebeu que havia muito tempo que no se sentia to til. Estaria se sentindo apenas til ou tambm comprometido? Comprometido e feliz, talvez?
Embora preferisse champanhe, limonada e cerveja teriam de bastar. Rita no bebia nada alcolico, mas Nate bebericava algo, embora raramente.
Havia se acostumado com todos os hbitos dele. Era normal ver o enorme avental dele pendurado na cozinha, assim como aquela muda de roupa que ele mantinha no canto do quarto, para os dias em que chegava muito empoeirado do trabalho e precisava se trocar antes de comear a ajud-la.
No havia escova de dentes para ele no banheiro, nem chinelos sob a cama, mas podia senti-lo ficar mais ntimo a cada dia. Aquilo era maravilhoso.
"Espere a, mocinha", pensou, censurando-se. O semestre acabaria em apenas uma semana. Era verdade que o curso pr-natal iria se estender um pouco mais, mas o que isso significava?
Nada. Estava esperando o filho de outro homem. Aquela postura vinha do lado de "bom samaritano" de Nate, nada mais. Do mesmo lugar de onde vinham aquelas peas gratuitas e os preos muito baixos que vinha cobrando pela mo-de-obra.
Deveria se acostumar  ideia de que no havia nada alm disso. Mesmo assim, ouvi-lo bater  porta a fez sorrir de maneira incontrolvel.
Ao atender, segurou a redao em frente ao rosto, exibindo-a com orgulho.
	Veja! Consegui um "A". Comprei cerveja para celebrar.
	Celebrar o qu?
A voz era familiar, mas no a que ela esperava ouvir. Um tremor a dominou.
	Howard?!
L estava ele, parado sob o portal, sorrindo de maneira estranha. Antes que pudesse reagir, foi tomada nos braos.
	Esquea qualquer celebrao que tivesse em mente. Vamos comemorar meu retorno  falou ele, fechando a porta e a levando para dentro, sentando-se junto dela no sof.  Aposto que est surpresa.
Em choque, Rita levou a mo ao prprio peito. Como sempre, no estava conseguindo dizer nada na presena dele. Acostumara-se quela personalidade dominadora. Meses antes, aquilo no a incomodava. No momento, porm, precisava se fazer ouvir.
	Sentiu minha falta?  indagou Howard, envolvendo-a pela cintura e aninhando-a em seu brao.
Sem conseguir coordenar a fala, Rita apenas o empurrou para o lado e o manteve a distncia.
	O que foi?  perguntou o recm-chegado, soltando ento uma risadinha compreensiva.  Entendo. Quer tomar um banho primeiro, certo? Ainda est cheirando comida de restaurante.
	Acabei de sair do chuveiro, mas isso no importa. Por que no respondeu s minhas cartas?
	Que carta?
	Cartas. No plural. Mandei muitas. Howard sorriu.
	Devem ter perdido minha trilha.
Ao falar, abraou-a e beijou-lhe os cabelos. A mente de Rita estava trabalhando em alta velocidade. Ao longo daquele tempo, julgara estar sendo ignorada de propsito, por causa do bebe, mas nenhuma de suas cartas havia chegado a ele. Como pudera julg-lo to mal?
	Lamento que suas cartas no tenham chegado at mim. Comecei a mudar de locao com a expedio muito antes do que imaginei a princpio. Voc no acreditaria como o correio  arcaico naquele lugar. O sistema de comunicao  to ruim que nem me dei ao trabalho de escrever nem ligar. No valia a pena, tamanho o transtorno que causava.
O que aquilo significava? Bem, Howard avisara que seria difcil se comunicar. Contudo, aquela maneira de se expressar estava errada. Seria to difcil demonstrar um pouco de empatia? Iria dizer a ele o que pensava.
	Nem imagina como me preocupei com voc, comigo e com o...
	No importa. Agora estou aqui. E um ms antes do prazo, o que foi um golpe de sorte. Esto procurando por um novo chefe de departamento na universidade. Fiquei sabendo disso quando passei em meu escritrio, h alguns dias.
	O qu? Quer dizer que chegou h dias?
	Uma semana, na verdade.
	E no entrou em contato comigo, exceto agora?
	Tinha que fazer meus relatrios e terminar o trabalho. No queria distraes, entende?
	Oh?  Rita estreitou o olhar.
	Bem, queria me livrar da parte profissional para poder me concentrar em voc.
Como se tivesse lido seu pensamento, Howard deu a resposta adequada. Pr qu, ento, aquilo no a fez sentir-se melhor?
Contudo, ao ver aqueles olhos verdes e o sorriso que a conquistara havia muito, ficou encantada. O beb seria parecido com ele, pensou. E toda sua preocupao desapareceu.
Sabia que Howard estava trabalhando em um pro-jeto muito importante. J havia aprendido que, quando ele estava concentrado, a casa poderia explodir a sua volta que ele nem mesmo notaria. Talvez a criana herdasse isso tambm. Com sorte, em uma dose mais moderada, claro.
	Voc falou algo sobre ter cerveja em casa?  indagou ele, levantando-se de repente.
Ao balanar no estofado do sof, Rita percebeu que estava com enjoo. Precisava contar sobre o bebe. Naquele exato momento. Quando tomou flego para comear, ouviu algum bater  porta. Nate.
Esquecera-se dele por completo. Antes que pudesse se levantar, Howard abriu a porta, j com a lata de cerveja na mo. L estava Nate Morrow, com a mo esquerda encostada ao portal e a direita segurando um pizza.
	Oh  falou Howard, com pouco caso, tirando uma nota de dez dlares da carteira.
Pegou a pizza e colocou o dinheiro na mo de Nate antes de fechar a porta, sem a "menor cerimnia.
	Mas que cara assustador  disse, com uma careta.  Precisa tomar cuidado com o lugar de onde pede comida pronta. Nunca se sabe...
Rita ficou paralisada, at que outra batida  porta a fez entrar em movimento. Antes que Howard atendesse, ela o fez. Exceto pela nota em sua mo e pela careta, a pose de Nate no havia mudado.
	Voc deu um e cinquenta a menos  disse ele, olhando para Howard por sobre a cabea dela.
	E mesmo?  surpreendeu-se o outro, pegando a carteira outra vez.
	Esperem a  falou Rita, segurando a mo de Nate e o puxando para dentro.
Mesmo depois de apresent-los, os dois continuaram se encarando de maneira pouco amistosa.
	Nate tem me ajudado com meus estudos  prosseguiu ela.   o responsvel pelo "A" que consegui na minha ltima redao. Como sabe, Howard ...
	O responsvel  interrompeu Nate.
	O qu?  indagou Howard, olhando de um para outro.
O silncio que se seguiu foi quase insuportvel. Rita teve a impresso de que, a qualquer instante, ambos iriam se agredir. Contudo, antes que tivesse de tomar partido, a situao se resolveu.
	Meus parabns  falou Nate, desviando ento o olhar na direo dela.
O que viu na expresso dele lhe causou uma sensao de vazio. Ao tentar estender a mo para toc-lo, viu-o esquivar-se e sair pela porta aberta, parando outra vez. Aquilo a fez conter o flego.
	Bem, aproveitem a pizza.
Ao dizer aquilo, partiu.
	Sujeito esquisito, no? Ainda bem que sabe a hora de sair  falou Howard, aproximando-se para abra-la por trs.  O que ele quis dizer com "o responsvel"?
Indicando para que ele se sentasse, Rita respirou profundamente e o encarou.
	Howard, temos de conversar.
	E o que  que ele vai fazer a respeito?  perguntou Norm, com seu irritante tom de voz ainda mais estridente do que o normal.
	Nada!  protestou Fred.  Pelo que consegui arrancar de Nate, ele ficar feliz em se fingir de morto. No vai erguer sequer um dedo para lutar por ela!
		Mas que vergonha  completou uma das quatro irms solteironas.  Qualquer um pode ver quanto ele a ama.
"Todos, menos o prprio Nate e, talvez, Rita", pensou Al.
	A pergunta agora : o que faremos a respeito? --- indagou outra solteirona.  No podemos deix-la se casar com o homem errado.
	Claro que no!  falou o corpulento presidente do conselho secreto.  Acho que teremos de dar um jeito nisso. E do nosso modo. Esto lembrados da festa da universidade? O professorzinho vai levar nossa menina. Vamos providenciar para que Nate esteja l tambm, mesmo sem convite.
O sorriso compartilhado pelos quinze rostos deixaria at o conde Drcula preocupado.

CAPITULO XI

Rita se ajeitou em um canto do salo, onde havia muitas plantas. Sentia-se pouco confortvel usando o vestido apertado que Ho-ward insistira em lhe comprar. No poderia sentar-se ao longo de toda a noite, a menos que no se importasse em rasgar as costuras do traje.
Como era possvel que ele no compreendesse a anatomia de uma mulher grvida de quatro meses? Seus quadris e seios haviam aumentado. Seu abdome j estava comeando a se pronunciar, embora no deixasse nada bvio.
Por alguma razo incompreensvel, ele no aprovava o uso de roupas prprias para a gravidez e achava cedo para anunciar sua condio. Mas ela s poderia concordar com aquilo por mais um ms, j que logo precisaria de trajes adequados.
Porm, qual a razo para manter segredo? E por qu, durante as poucas vezes em que conseguira faz-lo falar no assunto, ouvira-o referir-se  gravidez como "a situao"?
Em meio  multido, podia v-lo na companhia de diretores e conselheiros, sempre fazendo-os rir ao final de uma longa conversa. No havia dvida de que estava discutindo sua posio como chefe do departamento de pesquisas da universidade. Era a escalada social em andamento. Por mais que desejasse ir embora dali, ela no poderia interromp-lo.
Ao ver um grande vulto se aproximar por entre as plantas, arregalou os olhos. Estava comeando a pensar em se afastar daquele canto e quase gritou quando um rosto enorme surgiu no meio da folhagem. Era Al.
	O que voc est fazendo aqui?  perguntou ela.
Ele deu a volta nas plantas.
	Certificando-me de que voc no vai comer nada envenenado.  sempre bom tomar cuidado com as coisas que servem por aqui. Interessante seu vestido. Acha que o beb est respirando?
	Como poderia? Eu mesma no estou conseguindo.
	Sabe, voc parece feliz como um peixe no freezer.
	Quem me dera estar to sossegada assim.
	Estou pronto para sair a qualquer hora  disse ele.  Est disposta a dar uma desculpa e ir embora?
"Mais do que disposta", pensou Rita. Precisava se preparar para o exame final de matemtica, que aconteceria dali a dois dias. Contudo, quando se voltou para Howard a fim de avis-lo de sua partida, viu-o comear a rir, acompanhado de todos que o cercavam. Ele se virou e a fitou com uma piscadela, sorrindo de uma maneira to terna que a fez esquecer o que tinha em mente.
	O que se passa com o "engomadinho"?  questionou Al.
Ao ouvir aquilo, o momento de encanto desapareceu. Estava cansada daquela perseguio contra seu noivo.
	Howard est tentando conseguir a chefia de seu departamento.
	Oh, adulando os grandalhes para subir na vida?  sugeriu ele, pedindo ento desculpa.  Lamento. Mas, como percebo que vai ficar, acho que farei o mesmo. Voc precisa pelo menos de um amigo por perto nessa maravilhosa festa.
Foi incrvel observar como um homem daquele porte desapareceu to depressa, sem lhe dar chance de protestar.
Mais algum tempo se passou e j era nove e vinte, momento em que comeava a aula do curso de preparao pr-natal. Mas que diferena fazia? Desde a chegada de Howard, ela no a frequentara mais. Ele se recusara a "perder tempo" com aquilo. E seria um insulto pedir a Nate para continuar a acompanh-la. O que era um desperdcio, pois ele era um timo treinador, que prometia ser excelente marido e pai.
Sem perceber, suspirou. Ao olhar para seu noivo, viu-o gesticulando e rindo de maneira contida, como todos os colegas. Por que ningum ali podia se soltar e gargalhar um pouco?
	No posso sair agora  disse ele, duas horas depois.  Por que quer partir to cedo? Deixe para se preparar amanh.
	Mas eu vou fazer isso. Acontece que preciso estudar hoje tambm.
	 apenas uma matria, Rita. Se acha to difcil fazer uma redao em sala, por que no desiste do curso?
Ao ouvir aquilo, um surto de nusea a dominou. Um gosto amargo lhe veio  boca, mas no poderia deixar que nada acontecesse ali. No naquele momento, seno estragaria a festa.
"Por que no?", ecoou uma estranha voz em sua mente.
	Por que est sorrindo assim?  indagou ele. Rita se esforou para ficar sria.
	Nada.
	Mais meia hora. Sei que pode esperar mais meia hora.
"Veremos", murmurou aquela mesma voz, dentro de sua cabea.
Quinze minutos depois, Rita se aventurou a sair de seu canto para ir ao toalete. Embora estivesse prestando ateno, no localizara Al pelo caminho. Ao chegar l, encontrou uma placa informando que o sanitrio estava interditado para manuteno.
No mesmo momento, estreitou o olhar com ar suspeito, relendo a placa.
	Espero que no seja trabalho seu.
Reconheceu a voz grave e profunda de imediato.
Antes de se virar, sorriu como se estivesse vivendo o melhor momento da festa. Entretanto, a ensaiada expresso desapareceu no momento em que fitou aqueles penetrantes olhos castanhos. S ento percebeu quanto sentira falta dele.
Quase tiveram um relacionamento, mas ela fizera uma opo antes de isso acontecer. Poderia at ter saudade dele, mas precisava reatar seu corao a Ho-ward. O beb precisava de um pai.
	Preciso entrar ali. H algo que eu deva saber?  questionou Nate, apontando para o banheiro.
	Ei, no fui eu quem fez isso!
Ele deu de ombros.
	Nesse caso, no encontrarei nenhuma pea de roupa ntima.
	Se achar, no ser de algodo. Esse pblico s deve usar seda.
Ao acabar de falar viu-o se virar, olhar para as pessoas ao redor e voltar a encar-la, dizendo com segurana:
	Seda? No creio. Talvez polister, no mximo.
Quando soltou o riso, Rita percebeu como o bom humor dele a fazia sentir-se bem. Antes que o assunto se tornasse pblico, pareceu-lhe melhor mud-lo.
	No o tenho visto nos ltimos dias. Esta  uma cidade pequena. Pensei que nos encontraramos a toda hora.
	Isso depende de que lado da cidade se costuma ficar. Tenho trabalhado muito na regio leste.
	Bem,  que me parece estranho no v-lo.
	Quebre dois canos e me ligue pela manh  falou ele.
Mais uma vez ela riu, mas parou ao ver que Nate no a acompanhou, mas sim franziu o cenho.
	O que foi?
	Por que no est em casa estudando? Depois de amanh  o grande dia.
	Voc se lembra? Bem... Quero dizer, Howard logo me levar para casa. Ele sabe como esse teste  importante e tem muito orgulho de mim.
	Sei  murmurou ele, com um ar pouco convencido.
	Alm do mais,  apenas uma redao. Se eu no for capaz de faz-la, nem deveria estar estudando.
	Exatamente o que eu disse  falou Howard, aproximando-se e colocando a mo no ombro dela.
Rita se assustou.
	Estava dizendo a Nate que estvamos de partida, querido.
	Voc  o entregador de pizza, certo? No me diga que algum aqui pediu algo...
	Nate  um encanador  explicou ela.
	Entendo  falou Howard, olhando para a placa na porta do banheiro.  Vejo que o dever o chama. No queremos ficar no seu caminho.
	Mas...  murmurou Rita, constrangida, mas seu noivo a interrompeu.
	Querida, no poderei ir to cedo. O superintendente quer ouvir minhas ideias sobre o departamento. Por que no pega um txi e vai para casa?
Ao acabar de falar, beijou-a na testa e voltou para a companhia dos colegas de trabalho. . Se precisar de uma carona...  ofereceu Nate.
	No, obrigada. Al est por aqui em algum lugar e j se ofereceu para me levar.
 Al est aqui?  indagou ele, olhando para a placa e ento voltando a encar-la, com ar curioso.
	Ele no ousaria. Ousaria?
	Imagine... Ns dois o conhecemos muito bem, no ?
Nate saiu do toalete meia hora depois, torcendo para no esbarrar em Rita outra vez. Ao sentir um toque no ombro, congelou. Contudo, em vez de se deparar com o "casal vinte", encontrou o rosto rechonchudo de Al.
	Estou fazendo um servicinho extra  disse o homem, mostrando a bandeja cheia de taas que trazia na mo.  E voc? Foi convidado?
	No. Estava apenas tirando meia centena de canaps do vazo sanitrio. Algum por aqui no gostou do cardpio. Faz alguma ideia de quem possa ser?
	Oh, poderia ser qualquer um. Mas j que est aqui, preciso de um grande favor. Eu mesmo resolveria o problema, mas no posso sair antes dos convidados ou no recebo meu pagamento.
Enquanto seguia Al, Nate teve a sensao de que estava caminhando para a teia de uma aranha. Contudo, pelo ar de conspirao no rosto dele, tinha a impresso de que sabia o que iria acontecer.
No precisa agradecer  falou Nate, desviando o rosto no momento em que os olhos de Rita encontraram os seus.  Estou fazendo isso por Al, j que ele no podia lev-la para casa como prometera. Fez uma pausa e olhou na direo do noivo dela, . E ento, qual  a histria do rapaz?
	Howard est tendo a oportunidade de conseguir a chefia do departamento em que trabalha  explicou ela, sorrindo com certo desconcerto.
"Aposto que sim", pensou ele, vendo o homem bajular os indivduos mais influentes da universidade. Conhecera muitas pessoas assim quando era advogado, e descobrira que eram sempre os piores maridos. Era lamentvel ver Rita destruir a prpria vida ao lado de um egosta como aquele.
	Se for incomod-lo, posso pegar um txi  disse ela.
	Eu nem pensaria nisso. No na perigosa Hooper-ville. Se bem que, a meu ver, todos os indivduos pe-riculosos da cidade esto nessa festa.
	Ora...
Embora tivesse ameaado protestar, ela no o fez.
	Vamos.
Ao tocar o cotovelo dela com a mo para conduzi-la ao estacionamento, sentiu uma espcie de descarga eltrica. Pelo tremor que percebeu em Rita, a reao parecia ter sido a mesma em ambos.
"Eletricidade esttica, meu caro", pensou consigo mesmo. "Pura fsica e nada mais. No  nada emocional e, se fosse, no seria recproco."
S no poderia explicar o mal-estar que sentiu naquele instante. Era a primeira vez que se sentia daquela forma por no estar se envolvendo com algum. Pelo visto, seria muito difcil suportar sua nova condio de observador passivo.
Apesar do sistema de ar-condicionado da perua estar ligado, Rita nunca sentira o corpo to quente. Estar a poucos centmetros de Nate a estava abalando.
Por que ele a afetava tanto? Aquilo no era normal. Jamais sentira nada to intenso, nem mesmo por fjoward. Movendo-se no banco, tentou distrair-se das reaes indesejveis de seu corpo, que parecia disposto a tra-la.
A ttica at teria funcionado, se ele no tivesse achado seus movimentos to interessantes.
	Voc est inquieta. Deve ser esse vestido apertado, que parece ser bastante incmodo. Afinal, o que aconteceu com aquela camiseta amarela, com a declarao de gravidez?
	Oh, era social demais para a festa de hoje. Esse vestidinho azul parecia mais informal, sabe  respondeu ela, passando a mo pelo tecido que lhe cobria mais da metade das coxas.
Ao notar que o olhar dele estava seguindo o caminho traado por seus dedos, cruzou os braos de imediato, limpando a garganta antes de voltar a falar:
	De qualquer modo, eu e Howard faremos nosso anncio mais adiante. No precisamos fazer publicidade disso agora.
	Eu diria que voc foi uma tima publicidade hoje. Deve ter recebido muitos "As" dos chefes de seu namorado.
	O que disse?  indagou Rita, com ar indignado.
	Tem certeza de que no entendeu? Est andando com aquele "almofadinha" h poucos dias e j est falando com ar de falsidade. Espero que no tenha inteno de usar esse timbre ao atender mesas no restaurante do Al.
	No pretendo mais trabalhar l.
Ao comear a frase, Rita manteve o tom pedante que Howard havia lhe ensinado a usar, mas ao notar a expresso de decepo de Nate, terminou a frase falando de maneira normal.
Na verdade, o olhar dele estava carregado tambm de mgoa, tristeza, desgosto e, talvez, esperana. Seria possvel ou estaria vendo demais? Afinal, a expresso apareceu e sumiu to depressa quando seu salrio depois do pagamento.
	Estamos procurando uma casa  disse ela, tentando arrumar o que falar.  Isso est tomando todo meu tempo. E ainda preciso pesquisar moblia e mo-de-obra para reformas, entre outras coisas.
	Ento pretende seguir mesmo adiante com isso?
Ao v-lo perguntar, pareceu notar um certo brilho em seu olhar. Mas, conforme seu silncio se prolongou, j que no sabia bem o que responder, o que quer que houvesse visto voltou a desaparecer.
	Meus parabns  concluiu Nate.
	Acho que j ouvi isso na minha casa, no dia da entrega da pizza.
	Desta vez estou sendo sincero.
Naquele momento, viu-o se voltar para frente de maneira resoluta, pressionando os lbios fechados.
	Bem, acho melhor no dizer nada  murmurou ela, ouvindo-o apenas resmungar e nada dizer.
Depois de alguns minutos, o silncio se tornou insuportvel. Inclinando-se para a frente, ligou o rdio. No instante seguinte, se arrependeu. Estava na mesma estao que Fred costumava escutar nos finais de tarde. Uma das msicas daquele mesmo repertrio romntico comeou a ecoar pelo carro.
Aquilo lhe trouxe uma onda de nostalgia. Quando estava comeando a sentir lgrimas se acumulando em seus olhos, Nate desligou o aparelho com um gesto rude. O sbito silncio a fez perceber a realidade outra vez.
No poderia se deixar levar. Em nenhum momento ouviu-o dizer que se interessaria em aceit-la. Deveria esquec-lo, mesmo que sua vida ao lado de Howard no lhe acendesse a chama que havia descoberto dentro de si. O beb precisava do pai.
Contudo, quando chegaram  sua casa, ainda em silncio, faltou-lhe fora de vontade para sair do carro.
	Obrigada pela carona  disse Rita, sentindo-se
grudada ao banco.
Nate continuava olhando para frente, sobre o volante, mas no a apressou. Depois de algum tempo, soltou um longo suspiro.
	Est se alimentando direito?
A pergunta a pegou de surpresa. "Ele ainda se importa com isso?", pensou.
	Sim. E tambm estou tomando minhas vitaminas na hora certa.
	Otimo. Isso  importante. E quanto aos exerccios? Os perodos de descanso? No est ficando tempo demais em p, est?
	Estou fazendo tudo conforme o mdico mandou.
	Excelente. E as aulas do curso pr-natal? Agora conseguiu um treinador com uma motivao especial, no ?
Rita pigarreou.
	Howard est preparando a apresentao de sua pesquisa, e com aquela promoo em vista...
	No precisa se desculpar por ele  interrompeu Nate.
	No estou fazendo isso  mentiu ela, arrepen-dendo-se de imediato.  Sim, estou  fez uma pausa.  Por acaso no estaria disposto a voltar?
	Sabe que isso  invivel.
	Sim, eu sei.
Depois de outro longo silncio, viu-o abrir a porta e contornar o veculo. Quando ele chegou a seu lado, conseguira apenas soltar o cinto de segurana. Aceitando o apoio oferecido, desceu e ficou de p na calada. Quando seus dedos se separaram, a sensao de solido a levou a sentir um calafrio e estremecer.
	Est com frio?  indagou Nate.
	Apenas cansada.
Ao v-lo se virar para partir, no quis deixar a impresso de que o estava dispensando, ento continuou falando:
	Quer um pouco de ch?
	Sabe que s bebo caf. Exceto no Al, onde  mais seguro pedir suco.
	S tenho instantneo, mas ser um prazer lhe servir uma xcara.
Nate levantou o rosto em direo ao cu estrelado, antes de encar-la.
	O que voc quer, Rita? O que realmente quer?  indagou ele, prosseguindo depois de um longo silncio.  Vou dizer o que quero, ento: meu caf, pela manh, durante o desjejum, com ovos e torradas. Se no estiver disposta a oferecer algo mais completo...
Estreitando o olhar, deixou a frase incompleta.
	Est falando de passar a noite aqui?
	S para comear.
Ao pensar naquilo, Rita percebeu quanto o desejava. Queria fazer amor com ele. Mais do que isso, queria passar toda sua vida ao lado dele. Sim, como no percebera antes? Estava comeando a sorrir, prestes a contar o que acabara de descobrir sobre si mesma, quando foi tomada por uma onda de pnico.
Como pudera achar que aquilo seria possvel? No com o beb e Howard em sua vida. Precisava explicar isso a Nate. No poderia oferecer o que ele merecia.
Contudo, ao encar-lo fitou a face de algum que j havia compreendido a resposta. Ao abrir a boca para falar, sentiu o dedo dele pressionando-lhe os lbios.
	Acho que vai cometer um erro  avisou ele.  Mas ter de descobrir isso por si mesma. Seu orientador no poder ajud-la dessa vez.
O beijo aconteceu lentamente, mas mesmo assim Rita no tentou se afastar. De repente, aquele toque suave aconteceu. Ento foi se tornando mais intenso e ardente. O mundo pareceu se dissolver a sua volta. Apenas aqueles lbios existiam. Eram sua ponte com uma realidade maravilhosa e promissora. No precisava respirar nem pensar. Podia apenas sentir. Dentro de si, uma confuso de desejos se ordenava. Queria gritar "sim" para ele.
No soube ao certo quando aquilo terminou, nem quando se separam. Ao abrir os olhos, encontrou-o fitando-a.
	Pense a respeito  disse Nate, afastando-se e deixando-a trmula e ofegante.
Mas a ltima coisa que ela conseguiria fazer naquele momento seria pensar.

CAPTULO XII

Cinco dias haviam se passado. Nate j no trazia mais o sabor dos lbios de Rita nos seus e o perfume dela j sara de sua pele. Contudo, podia senti-los toda vez que fechava os olhos. E essa era uma lembrana que lhe contraa o peito.
J passava das dez horas da noite e no adiantaria ficar acordado, pensando nela. Seria melhor subir e tentar dormir.
Estava com o p no primeiro degrau da escada quando o telefone tocou. Ao atender, no houve como deixar de reconhecer a voz do outro lado da linha.
	Venha depressa!  disse Al.   uma emergncia!
Ao entrar no restaurante, do outro lado da rua, no identificou nenhum sinal de problema. A cozinha parecia seca e o proprietrio estava sentado em um banco,  beira do balco.
	Ei, qual  a emergncia?  indagou, rogando para que no fosse outro vaso sanitrio quebrado.
	Voc mesmo, ora  respondeu Al, encarando-o.  Acho que  um verdadeiro caso de calamidade pblica ambulante, isso sim. Sei que no posso colocar bom senso  fora em sua cabea, ento pensei em lhe oferecer um ombro amigo.
	No sabia que havia includo "ombro amigo" no cardpio.
	Quem falou que eu inclu?
Ao falar, abriu duas latas de cerveja e acenou para que Nate se sentasse e o acompanhasse. Trs latas depois, ele ainda no havia descoberto qual era o assunto que o levara a estar ali. Na quinta rodada, Al finalmente falou:
	O que pensa a respeito de Rita?
"Tento no pensar nela", foi o que lhe ocorreu antes de responder:
	Ela me parece bem. Bastante feliz.
	Assim como voc. Nunca vi duas pessoas to felizes. Se ficar mais animado do que est no momento, precisarei lev-lo para o hospital, para medir sua presso.
	Vejo que no receberei apenas cerveja como consolo. O que mais acompanha esse "especial ombro amigo"?
	No quer saber o que ela v naquele idiota?
	No.
Al respondeu mesmo assim.
	A princpio, ele parecia sincero. Demonstrou interesse, mostrou-lhe coisas novas: museus, teatros, pera e tudo mais. Levou-a para passear fora da cidade pequena. Rita pensou que o "almofadinha" a amava, mas o homem s estava se divertindo.
	Talvez o idiota, quero dizer, o noivo dela, possa mudar. Todos podem mudar um dia.
	No caso dele, acho pouco provvel.
	Ora. No posso ir at l e for-la a ver isso, no ? Ela o aceitou depressa demais. O cretino saiu de frias e disse que era uma expedio, desaparecendo sem dar notcias. Ento volta e  recebido como um heri de guerra, com o mesmo ttulo de noivo e sem nenhuma represlia. Foi uma opo, entende? Isso  tudo.
	O beb  falou Al.  Rita s est tentando construir uma famlia, pelo bem da criana.
	Nesse caso, o "papai" j foi escolhido. Estou fora disso.
	Ento no se importa?
	Nem um pouco.
	No se incomoda de v-la estragar a prpria vida, a do beb e a sua?
	A minha? Impossvel. Tenho meus assuntos para cuidar. No deixarei que nada a respeito de Rita me perturbe.
	"Sr. autocontrole", certo? O homem que no se deixa distrair.
	Isso mesmo. Nada me tira o foco mental.
	Ento deve ser por isso que est dando o segundo gole no vidro de ketchup.
Nate olhou para a garrafa vermelha em sua mo e ento para a lata sobre o balco. Depois de franzir o cenho, deu outro gole.
	Fiz de propsito, percebe?  um aperitivo para acompanhar a cerveja. Quer um pouco?
	Vejo que  mais teimoso do que imaginei a princpio  resmungou Al, balanando a cabea negativamente.  Alm de tolo, claro.
	E voc  excelente no departamento de "ombro amigo". Tem certeza de que no tem nenhum cano com problema para consertar? At um vaso sanitrio serve.
	Nada quebrado.
	Nesse caso, eu preciso ir. Amanh terei um dia cheio, instalando aquecedores na faculdade.
	Se no se importa de verdade, por que est planejando fugir, Nate? Por que mandou Cari, o corretor local, impedir que alugassem seu apartamento em Cin-cinnati? Vai voltar para l?
Levantando-se, Nate acenou e saiu do restaurante. No havia piada para responder quela pergunta.
Estava mesmo pensando em partir, mas no to depressa. Se Rita largasse o "professorzinho", ainda estaria ali, esperando. Contudo, se ela no o fizesse...
Rita estava sentada no lado oposto da sala do apartamento de Howard, olhando-o trabalhar, concentrado, por horas a fio. Antes, admirava aquela capacidade dele em focar a ateno. Contudo, ao longo daqueles dias de convvio, desde a festa, sua opinio mudara.
A habilidade dele de bloquear tudo o que pudesse interferir em seus objetivos estava sempre deixando-a de fora. Tornara-se uma interferncia constante para ele. Talvez sempre houvesse sido assim, e s ela no notara.
Mas aquilo iria mudar. Precisava apenas conseguir a ateno dele.
	Howard, precisamos conversar. No obtendo reao, tentou outra vez:  No  por nada, mas sua casa est pegando fogo.
	Hum?  murmurou ele, ignorando-a depois de suspirar com impacincia.
	Acreditaria que o mundo est acabando?
Ao v-lo permanecer impassvel, foi tomada por uma preocupao. Se no revertesse aquele quadro, passaria a vida toda como uma observadora passiva. Seria um pesadelo!
	Alguns de seus papis caram no cho.
	Oh.
Howard se abaixou mais do que depressa para recolher seu trabalho. Quando nada encontrou, recostou-se  cadeira e cruzou os braos, olhando-a com ar intolerante.
	Rita, estou preparando a apresentao de minhas ideias e recentes descobertas para mostrar ao superintendente na prxima reunio da diretoria. No tenho tempo para conversar. No seja infantil.
	Isso no  infantilidade. Quero apenas um minuto de sua ateno. Deixe-me apenas introduzir o assunto, assim poder pensar a respeito.
Ao acabar de falar, encostou-se na mesa dele e deslocou alguns papis do lugar. Para sua surpresa, viu-o levantar-se depressa e coloc-la de lado, arrumando os documentos no lugar, com todo cuidado.
	Rita  falou ele, em tom de reprimenda.
	Howard  respondeu ela, imitando-o.
	Certo, est bem. Pode falar.
	Estou com a lista de convidados aqui. Preciso que a veja tambm.
	Interrompeu meu trabalho para falar de uma lista de convidados? Quando ser o jantar?
	Noivado, no jantar. Nosso noivado, alis. E ainda no sei quando, porque estou esperando sua opinio.
	Bem...  murmurou ele, fazendo uma careta ao ler os nomes dispostos em duas colunas.
	No h nada de errado a. So os mesmos convidados que estaro na igreja. Meus amigos  direita e seus camaradas  esquerda.
	Colegas e associados, no "camaradas". Por favor, aprenda a terminologia correta, sim? Alm disso, h pessoas demais aqui.
	Quantas?
Ele fitou a folha outra vez e a rasgou ao meio, de cima a baixo. Ento entregou a metade direita para ela, como se fosse algo contaminado.
	Tudo isso.
	Mas...
Aquilo a deixou boquiaberta e sem palavras. Eram todos os seus convidados.
	J imaginou esses caipiras jantando com o superintendente? Iriam acabar com minha promoo. Vamos fazer outro evento para eles. Que tal um piquenique? Seria o ideal. Cu aberto, no meio do nada, sem testemunhas para os fiascos. Isso sem falar que, com pratos de papel, no teremos prejuzos com loua quebrada.
Ao acabar de falar ele j estava rindo, com ar de deboche.
	Mas...  comeou Rita, sendo interrompida outra vez.
	Alm disso, ser melhor que esperemos um pouco.
	Esperar? Est brincando?
	No.  srio. No poderia ser.
	Nesse caso, de quanto tempo est falando?
	At que minha posio como chefe do departamento esteja assegurada. Talvez uns dois ou trs anos.
Aquilo a chocou. Demorou quase um minuto para que conseguisse responder.
	No pode estar falando srio. Howard, e quanto ao beb? Pretende lev-lo para participar da cerimnia?
	Querida, esse no  o momento ideal para termos filhos.
	Essa criana no escolheu o momento de aparecer, concorda?
	Nem eu  respondeu ele, com frieza.  Essa histria me pegou de surpresa.
	O que est querendo dizer com isso?
	Estive conversando com um amigo. Ele e sua parceira estiveram h pouco em uma situao semelhante.
Rita comeou a ficar impaciente.
	Oh,  mesmo?
Ele lhe entregou um carto, pressionando-o contra sua mo.
	Recomendaram-me esse mdico. No est ainda em um estgio to avanado. Nem chegou  metade. Disseram-me que ele pode cuidar de seu problema, mas  preciso agir agora mesmo.
"Meu problema?", pensou, indignada. Desde quando um beb era um problema? Estavam falando do filho deles! Aquilo era um absurdo. Abalada, mal conseguiu entender o que ele dizia.
	Pense na minha carreira. No posso ficar atado a mamadeiras, fraldas e essas coisas. Pense em como seria difcil me concentrar com choro pela casa e riscos de giz de cera em minha pesquisa.
Ao v-lo comear a rir, Rita se sentiu enojada. Estava surpresa de conseguir se conter por tanto tempo, mas havia se descoberto curiosa. Queria saber quo longe aquilo poderia chegar.
Esforando-se por continuar quieta, observou-o se aproximar da mesa e apontar para os papis com os quais trabalhava e o ouviu prosseguir.
	Esse  o nio filho em que posso pensar no momento. Esse projeto vai me valer uma carreira de sucesso. Logo voc ser a companheira de um homem importante. Talvez fique to contente com seu novo papel que nem venha a querer ter crianas por perto. No momento, deixe comigo que cuidarei de tudo. Imagino como ser difcil. Marcarei a consulta agora mesmo. Sabe que  para o nosso bem, no , querida?
Ao senti-lo se aproximar e tentar abra-la, empurrou-o para longe e saiu de seu alcance. Pela primeira vez, comeou a v-lo com clareza. Todos na cidade haviam percebido o carter dele, mas Rita no lhes dera ouvidos.
	Sabe, voc est certo, Howard. Um filho no combinaria com sua carreira. Por isso  que vou cuidar de terminar a faculdade enquanto sirvo mesas no res taurante. Precisarei de muita fora, j que terei d amamentar no meio da noite e de trocar as fraldas Sozinha. Tenha certeza de que serei eu a colocar o meu beb para dormir.
	Ora, seja razovel, Rita. No posso sustentar uma criana.
	No mesmo.  por isso que vou fazer tudo por minha prpria conta. Como disse, voc j tem seu filho.
Ao dizer aquilo, ela pegou a enorme pilha de papis nas mos, o que o levou a arregalar os olhos.
	Calma, querida, por favor. Coloque isso na mesa, sim?
	Oh, claro...
Em seguida, ela arremessou tudo para o alto.
Enquanto as folhas voavam para todos os lados, Howard corria de um lado para outro, aos berros, recolhendo suas anotaes e relatrios. Aquela foi a ltima vez em que o viu.
Ao sair do condomnio de luxo, entrou em Suzzie. O que iria fazer em seguida? Apenas um pensamento lhe veio  mente. Nate. Estava livre para am-lo. Isso , se ele pudesse aceitar o beb de outro homem. Seria um excelente pai e timo companheiro. A verdade estivera diante dela o tempo todo, mas ela conseguira ignorar o bvio. Precisava tentar consertar aquela situao.
Contudo, ouvira Al dizer que ele estava prestes a se mudar para Cincinatti. Seria tarde demais? Apressada, deu partida no motor e ouviu um estranho rudo.
Logo em seguida, silncio absoluto.
	Oh, carrinho lindo, no faa isso comigo... No hoje...
Tentou ligar o carro de novo e... nada.
Saindo, fechou a porta com fora e ouviu algo cair no cho. Uma pea se soltara sob o motor e estava naquele momento sujando o asfalto.
Deixando escapar um suspiro, olhou ao redor. Um jipe se aproximava. Estava cheio de crianas e tinha uma senhora de meia-idade ao volante. Sem vacilar, balanou o polegar estendido na horizontal, com a mo fechada.
Nunca pensou que fosse ficar to feliz em conseguir uma carona.

CAPTULO XIII

	Obrigada  disse Rita, descendo do jipe.
Correu ento para a frente da loja e ficou paralisada. A cortina da vitrine estava fechada! Tentou mexer na maaneta e descobriu o que j temia: estava trancada.
Nate costumava sair durante o dia, mas deixava a cortina aberta e a porta apenas encostada. Chegara tarde demais.
Como iria contar a ele que acabara de descobrir que o amava? Bastava pensar nele para comear a sorrir. Contudo, no havia motivo para ficar feliz, j que demorara demais para fazer a descoberta. Enquanto ficava s voltas com um sonho idiota, a verdadeira felicidade escapara-lhe por entre os dedos. Ou no?
Seria possvel que estivesse se precipitando? Se Nate no houvesse partido, talvez pudesse encontr-lo e convenc-lo a ficar.
Olhando de um lado para outro, fixou a ateno no restaurante de Al. De repente, seu corao se encheu de esperana.
	Onde est ele?  indagou ela, assim que entrou no recinto, colidindo com a nova garonete.
	No se assuste  falou Al, ao ver o ar surpreso da inexperiente funcionria, fitando apavorada a loua que deixara cair no momento do impacto.  Essa  Rita, minha assistente anterior. No se preocupe, que ningum lhe cobrar pelos estragos.
	Como pode ficar a limpando o balco?  esbravejou Rita, com impacincia.  Ele foi embora, Al! A loja est fechada e trancada!
	 o que parece  concordou ele.
	E ento?
	Calma, menina. Tem certeza de que sabe o que est fazendo?
	Como assim?  questionou ela, desejando pegar seu amigo pelo colarinho e sacudi-lo.
	Est com algum problema de encanamento?  indagou um dos clientes.
Rita se virou e viu que se tratava de Norm, sentado  mesa dois.
	No, no  esse tipo de emergncia  garantiu Rita, subindo em uma cadeira desocupada bem no meio do restaurante e comeando a falar com os presentes.
 Ouam, por favor!  Houve silncio.  Vocs todos foram injustos ao tentar controlar minha vida. Ningum pode me proteger das consequncias dos meus erros e nem tem o direito de evitar que eu os cometa. Porm, estavam certos a respeito de Nate. Eu o amo, mas acho que demorei muito para perceber. Acredito que ele tenha ido para Cincinnati. Se algum souber me dizer onde encontr-lo, por favor, diga logo!
Ao terminar de falar, descobriu que estava com o rosto mido de lgrimas e que todos no restaurante estavam com seus lenos em punho, enxugando os olhos. Mas o silncio continuou. Talvez no obtivesse informao alguma deles, mas pelo menos conseguira comov-los.
	Procure do outro lado da cidade  falou Al.  Ele est desde cedo instalando aquecedores nos prdios da faculdade.
	Na faculdade? Aqui, na nossa cidade?
	A menos que todo o campus tenha sido abduzido por aliengenas, ainda  aqui mesmo.
Soltando um grito de vitria ela desceu do banco e deu um abrao apertado no amigo.
	Preciso de seu carro, Al. O meu quebrou.
	Algum dia ele j funcionou?
Sorrindo ao receber as chaves, Rita saiu em disparada para a rua. Era s correr para a faculdade, encontr-lo e... Encontr-lo? Como o faria? Os oito prdios eram enormes e distantes um do outro. Mesmo que tivesse meios para vasculhar cada edifcio, nada impediria que se desencontrassem. Precisava encontrar um meio de chamar a ateno dele.
De repente, teve uma ideia. Antes de entrar no carro de Al, abriu o porta-malas e comeou a procurar a caixa de ferramentas. Depois de alguns segundos, encontrou o que precisava: a maior chave inglesa que j vira at ento.
Nate j havia instalado seis dos oito aquecedores. Estava indo muito mais depressa do que imaginara. Eram quase trs horas da tarde e acabara de almoar, mas no estava se sentindo satisfeito. Tudo parecia sem sentido, e a comida estava sem sal.
Enquanto se afastava do refeitrio dos estudantes, um brilho amarelo lhe chamou a ateno, ao longe. "Rita?", pensou, e seu peito se contraiu. Parecia a camiseta "Maternidade Explcita" que vira nela no restaurante.
Mesmo que seu bom senso lhe dissesse para ignorar a viso, foi impossvel faz-lo. Sabia que ela estava escondendo a gravidez, mas uma esperana cega o dominou. Aquilo tambm no fazia sentido, j que estava tentando esquec-la.
"Ora, Nate, no fuja. Est tendo outra chance. V atrs dela!", ecoou a voz de Nina, instruindo-o com carinho, dentro de sua mente.
Contudo, prometera no pression-la. Devia deix-la optar por si mesma. Era o melhor a fazer.
Ento a viu outra vez, espremendo-se entre a multido de estudantes e pegando o acesso do outro andar enquanto se afastava. Quando a perdeu de vista, sentiu uma desagradvel sensao de vazio.
	Chega de esperar  murmurou consigo mesmo,
saindo em disparada.
Atravessou o saguo e chegou  rampa a tempo de v-la desaparecer no outro piso. Quando chegou l, conseguiu alcan-la.
	Rita!  chamou-a, mas foi ignorado. Segurou-a pelo brao e a virou de frente.
	Rita?
Ao fitar aqueles olhos... castanhos? Onde estava Rita? Era difcil aceitar que estava olhando para a pessoa errada. Apenas os cabelos e a camiseta eram parecidos.
	O qu?  indagou a mulher.
	Desculpe-me  Nate a soltou.  Acho que a confundi com outra pessoa.
	Mas que originalidade. No imagino que este tipo de aproximao o leve a algum lugar  desdenhou a moa, ao se virar e se afastar.
"Errado, moa. Nesse momento, isso vai me levar muito longe", pensou.
Ao sentir tamanha decepo, teve certeza de que deveria ir atrs de Rita. S ento percebeu o que todos pareciam estar vendo: estava amando! No sabia bem quando acontecera, mas era a verdade.
No poderia perder tempo. Tinha de agir depressa se quisesse lutar por seu amor. Decidindo deixar os outros dois aquecedores para o dia seguinte, correu para o estacionamento e entrou na perua. Quem se importaria em recolher ferramentas naquele momento? S o que importava era encontrar a mulher que amava e dizer a ela o que sentia.
Colocou o carro na via principal da faculdade e rumou para a nica sada de veculos.
De repente, ao se aproximar da parte mais baixa do terreno, os carros comearam a diminuir a velocidade e a distncia entre si, at que pararam. Era um congestionamento dentro do campus. No havia como sair dali, pois no havia travessas naquele trecho e outros carros vinham parando logo atrs.
Abrindo a porta, desceu da perua e comeou a avanar a p, a fim de descobrir a causa daquela perda de tempo. Precisava sair dali o mais depressa possvel.
Avistou um cruzamento mais adiante, para onde convergia o trnsito das quatro pistas. Era a raiz do engarrafamento.
Acelerando o passo, no demorou para ouvir o som de gua jorrando, alm de gritos de diverso e euforia. Um casal todo encharcado passou por ele, andando no sentido oposto.
Quando chegou ao centro da confuso viu um alagamento. Uma verdadeira piscina havia se formado na depresso onde as ruas se encontravam. Em uma das esquinas, um hidrante aberto esguichava um volume absurdo de gua.
Logo ao lado, imersa at as coxas e com uma chave inglesa gigante apoiada em um ombro, estava Rita.
Ao v-la, um sorriso se formou em seus lbios. Devagar, comeou a avanar em meio  gua.
Nate havia chegado. Quando o avistou, Rita mal pde conter a alegria. Tinha tanto a dizer que no sabia se conseguiria. S lhe restava largar aquela chave na gua e sorrir.
	Foi voc quem fez isso?  indagou ele, a menos de um metro de distncia.
	Achei que seria a melhor maneira de chamar a ateno de um encanador.
	Sabia que tem um grande talento para destruir sistemas hidrulicos?
	Sim, sabia, mas essa no  minha especialidade.
	E qual seria ela?
	Posso lhe oferecer um timo desjejum pela manh, com ovos, torradas e uma grande xcara de caf.
	Entendo... S que ainda ter de provar isso, sabe? Mas devo avis-la de que, quando gosto do servio, tenho a tendncia de querer ficar por perto.
Rita teve a impresso de que o mundo havia desaparecido. Apenas aqueles olhos castanhos existiam naquele momento.
	Isso me parece um compromisso, estou certa?
	Certssima  sussurrou Nate, estendendo os braos e puxando-a para si.
Antes de seus lbios se encontrarem, ouviu-a murmurar:
	S que ainda ter de provar isso, sabe?
	 exatamente o que pretendo fazer de agora em diante, em cada dia de nossas vidas.
O beijo a fez sentir-se leve, como se estivesse alm da realidade. Uma tontura agradvel a dominou. No havia mais receio ou medo. Apenas amor. Nunca imaginara que tamanha fora existisse.
O que me diz?  perguntou Nate, depois de algum tempo, quando voltaram a se afastar.  Quer se casar comigo?
Enlaando os braos ao redor do pescoo dele, Rita fitou-o nos olhos, sorriu e esperou. Queria aproveitar aquele momento. Ento percebeu que estava perdendo tempo. Quanto antes aceitasse, mais cedo poderiam se amar.
	Sim! Sim!
Outro beijo selou o inusitado pacto de amor.
Em algum lugar, ao longe, a sirene do caminho dos bombeiros se fez ouvir. Aos ouvidos deles, porm, aquilo soou como um rgo de igreja, tocando a Marcha Nupcial e anunciando o comeo de um futuro repleto de felicidade...

FIM

DICAS

A GRAVIDEZ DE RISCO

A maioria das gestaes  normal e segue seu curso normalmente. Mas h situaes em que o mdico desconfia de complicaes, e por isso a gestante tem de ser acompanhada de perto durante os nove meses.
A gravidez de risco ocorre quando a mulher sofre de problemas gerais de sade ou est esperando gmeos. H casos, tambm, em que surgem sintomas que alertam o mdico da necessidade de cuidados especiais.
 ANEMIA

Muitas mulheres esto um pouco anmicas antes de engravidar. Isso se deve geralmente a uma deficincia de ferro. Essa anemia deve ser curada, para que voc possa enfrentar as crescentes exigncias da gestao e o sangramento do trabalho de parto.

Tratamento

O melhor  evitar o problema fazendo uma dieta rica em ferro. Se voc est anmica, seu mdico vai receitar-lhe suplementos de ferro. H mdicos que receitam ferro para todas as gestantes. Tome-os logo aps as refeies com muita gua, porque eles podem irritar o estmago e causar priso de ventre, diarreia ou enjoo. Alguns alimentos ricos em ferro, como espinafre, fgado e carne vermelha, tambm ajudam a proteger contra a anemia.
	DIABETES

Esta doena deve ter um controle rigoroso por toda a gravidez. E a taxa de acar no sangue deve ser determinada constantemente. Assim fazendo, no haver motivo para que a gestao seja prejudicada.

Tratamento

E imperativo manter estvel a taxa de acar no sangue. A dose de insulina ter de ser adequada para a gestao, e a dieta deve merecer ateno especial. Suas consultas de pr-natal vo ser mais frequentes. Algumas mulheres tm formas leves da doena durante a gestao, que desaparecem logo depois do parto.
	PROBLEMAS NO COLO DO TERO

Em uma gravidez normal, o colo do tero fica fechado at o incio do trabalho de parto. A ocorrncia repetida de abortos aps o terceiro ms pode ser devida  incompetncia do colo do tero, que se abre, expelindo o feto.

Tratamento

Seu mdico poder sugerir uma cirurgia para fechar o colo do tero no comeo da gestao. Os pontos so tirados no fim da gestao ou durante o parto.
	PR-ECLMPSIA

E um problema comum do fim da gravidez, cujos sintomas so: presso sangunea alta, acima de 14 por 9, ganho de 
peso excessivo, tornozelos, ps e mos inchados, e perda de protena na urina. Notando qualquer um deles em voc, o mdico vai redobrar os cuidados.
Se a presso sangunea no for tratada, ela pode provocar a condio extremamente perigosa de eclmpsia, na qual ocorrem convulses.

Tratamento

E provvel que seu mdico lhe recomende repouso, reduo do sal e lhe receite remdios para baixar a presso. Se os sintomas forem fortes, voc ser internada, mesmo que esteja se sentindo bem, e o parto pode ser induzido.
	RH NEGATIVO DA ME

Seu sangue  examinado em sua primeira consulta de pr-natal para ver se o Rh  positivo ou negativo. Cerca de 15% das pessoas tm Rh negativo. Se voc est entre elas, seu nico problema ser se o beb for Rh positivo. A incompatibilidade de grupo sanguneo entre a me e o beb pode no ser um problema se este for o primeiro filho, mas no se pode dizer o mesmo em relao aos prximos.

Tratamento

Quando a me  Rh negativo e seu primeiro beb nasce Rh positivo, logo depois do parto ela recebe uma vacina anti-D. Isso quase sempre evita problemas com futuras gestaes. Em alguns hospitais essa vacina  dada durante a gestao.
 BEBS "PIG" (DE BAIXO PESO)

Os bebs que no crescem de modo adequado no tero so chamados PIG  pequenos para a idade gestacional. Eles podem ser resultado do uso de cigarros ou da m alimentao da me, ou, ainda, do mau funcionamento da placenta (que ocorre geralmente quando a me tem uma doena crnica, como diabetes).

Tratamento

Se os exames revelarem que seu beb  pequeno, voc ter um acompanhamento mdico rigoroso durante toda a gravidez. A sade dele e a adequao do fluxo de sangue da placenta sero testados constantemente. Se ele parar de crescer ou parecer em perigo, o parto ser adiantado por induo ou por cesariana.
	GMEOS

Se voc est esperando gmeos, sua gravidez e parto ocorrero normalmente, embora tenha de passar por um parto duplo. E  provvel que seus bebs nasam prematuramente. Existe, tambm, uma possibilidade maior de voc vir a ter complicaes, como anemia e pr-eclmpsia, e de os gmeos estarem mal posicionados no tero. Outra possibilidade  a de que costumeiros incmodos da gravidez lhe paream muito fora do comum, especialmente nos ltimos meses.

Tratamento
Visitas regulares  clnica de pr-natal so importantes se voc espera gmeos, pois qualquer complicao ser percebida a tempo. A gravidez mltipla exige muito mais de seu corpo. Por isso, cuide da postura e descanse o mais que puder, em especial nas ltimas semanas. Para evitar problemas de digesto, como pequenas quantidades de alimentos frescos e ao natural vrias vezes por dia.
	SANGRAMENTO

Se voc notar sangramento pela vagina em qualquer fase da gestao, chame o mdico sem demora e fique deitada. Antes da 28a semana, isso pode ser sinal de aborto iminente. Aps essa semana, pode significar que a placenta comeou a se soltar da parede do tero (processo conhecido como deslocamento da placenta) ou que ela est muito baixa, cobrindo o orifcio interno do tero parcial ou totalmente (placenta prvia).
Tratamento
A placenta  a fonte de sobrevivncia do beb. Se o mdico considerar que existe algum risco para ela, poder encaminhar voc imediatamente ao hospital, onde a posio da placenta ser verificada. Talvez tenha de ficar internada at depois do parto. Se voc tiver perdido muito sangue, pode ser que lhe dem uma transfuso, e o parto provavelmente ser feito assim que possvel, por induo ou cesariana. Mas se o sangramento foi leve e ocorreu bem antes da data prevista do parto, o mdico poder decidir que o trabalho de parto se d naturalmente, man-tendo-se atento.
 ABORTO
Aborto significa a interrupo de uma gravidez antes da 28a semana, e pode ocorrer com cerca de uma entre cinco gestaes. Grande parte dos abortos ocorre nas doze primeiras semanas, quando a maioria das mulheres ainda no sabe que est grvida, geralmente devido a um desenvolvimento anormal do feto. O primeiro sinal costuma ser o sangramento pela vagina. Se voc chamar o mdico sem perda de tempo e permanecer em repouso, no vai necessariamente perder o beb.
Ameaa de aborto
Se o sangramento for leve e indolor, a gravidez pode ser salva. Seu mdico vai lhe recomendar repouso, e talvez o sangramento pare. E se voc se mantiver tranquila por alguns dias, a gravidez vai prosseguir bem, sem qualquer outro risco de anormalidades no beb. Pode ser que precise fazer outro teste de gravidez ou exame de ultrassom, para confirmar que est indo tudo bem.
Aborto efetivo
Se o sangramento for forte e houver dor, isso pode ser um sinal, de que o feto morreu, e voc ter de ir ao hospital, para fazer a curetagem do tero sob efeito de anestesia.
Seus sentimentos
Mesmo perdendo seu beb logo no comeo da gravidez, voc vai ter um enorme sentimento de perda. Os outros nem sempre compreendem sua necessidade de chorar pelo beb perdido e de ter tempo para se conformar. Ficar com a preocupao de poder ou no ter algum dia um beb normal e saudvel  comum, depois de um aborto. Sentir culpa, tambm,  algo muito normal, mas voc no deve se responsabilizar. O que houve no foi realmente devido a um erro seu. Voc poder tentar ter outro beb quando quiser,
mas alguns mdicos recomendam que se espere at depois do terceiro ciclo menstrual, antes de tentar engravidar novamente. No h razo para temer uma outra gravidez fracassada, a no ser que tenha tido outros abortos anteriormente.
GWEN PEMBERTON nos diz: Sempre me interessei em escrever sobre pessoas comuns que tm suas vidinhas simples viradas 'de pernas para o ar'. Tentar se safar, com recursos limitados,  o que faz brotar o herosmo, a criatividade e o bom humor que todos temos dentro de ns. Ter me mudado h pouco tempo para uma nova casa no abalou tanto assim a minha vida, mas trouxe alguns desafios. Como, por exemplo, escrever histrias enquanto dezenas de pedreiros e trabalhadores transformam os arredores de nossa regio deserta em uma comunidade. Embora a mudana tenha sido cansativa, no exigiu muito herosmo ou criatividade. Mas requisitou muito bom humor. Como na vez em que fui levar o cachorro para sua "saidinha" debaixo de uma chuva terrvel, e perdi as duas botas em um lamaal que chegava aos tornozelos. Junto de meu marido e de nossos dois filhos, estou agora esperando ansiosamente por vizinhos... e pelo crescimento da grama aqui em volta.

